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O Berçário do Vale do Silício

Jacir J. Venturi participou de uma missão oficial a Stanford e a 8 empresas do Vale do Silício, com mais 32 diretores e mantenedores de Instituições de Ensino do Brasil.

Por Jacir Venturi
21/05/2024 • 17h39
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A Universidade de Stanford, em Palo Alto, nos EUA, iniciou as atividades letivas em 1891, num legado do casal Leland e Jane Stanford à memória de seu filho único, que faleceu aos 15 anos de febre tifoide quando passavam férias em Florença, na Itália. Leland Stanford, empresário, senador e governador da Califórnia, dedicou a essa empreitada parte de sua fortuna, em uma área – hoje com 3.310 ha – adquirida como um dos big four construtores de ferrovias daquele país, inclusive fazendo parte da fazenda onde residia o casal. 

A concepção da universidade mereceu um planejamento meticuloso que perdurou cinco anos e contou com a participação de um dos mais conceituados arquitetos do país, que assinou também o projeto do Central Park, em Nova Iorque. À época, na região escolhida, predominava a exploração de minas de ouro, e a Califórnia como um todo era tida como terra inóspita, de caipiras. 

Nesse ecossistema tão pouco promissor e fruto dos anseios de genitores que se defrontam com galhardia a mais intensa tragédia humana – a perda de um filho –, nasceu uma universidade com DNA inovador. Até então, o acesso das moças ao ensino superior era quase nulo, enquanto Stanford, desde o primeiro ano, não restringia as vagas tão apenas aos rapazes. A maioria absoluta das universidades era vinculada a credos religiosos, mas Stanford nasceu laica. Por iniciativa de Jane, foram construídos alojamentos para estudantes e professores dentro do câmpus, algo inédito para a época. 

Ademais, tamanho foi o zelo em contratar bons docentes e em projetar um câmpus faustoso que choveram estocadas – dizia-se que renomados catedráticos iriam ensinar para as belas paredes. Os fatos, para o nosso gáudio, chicotearam os críticos: 555 alunos matriculados no primeiro ano de funcionamento. 

Apenas dois anos após concretizado o sonho, Leland veio a falecer, e a viúva doou quase toda a fortuna remanescente à Universidade, na época US$ 11 milhões, quantia cuja aparência nominal não representa adequadamente a expressiva cifra em valores correntes: mais de US$ 320 milhões. 

Dessa academia e de todo esforço dedicado a ela, emergiu uma megaempresa com orçamento anual em 2023 de US$ 8,9 bilhões, detentora de hospitais, pesquisas, patentes e ações de empresas ali incubadas ou aceleradas, sendo o ensino responsável por apenas 17% da renda bruta, uma vez que as doações são igualmente significativas: US$ 1,13 bilhão/ano, com 76 mil doadores cadastrados, numa cultura muito intensa lá, quase inexistente cá. Alunos matriculados perfazem cerca de 17 mil, mais da metade em programas de especialização, mestrado e doutorado, cuja anuidade média é de US$ 69 mil. 

Contíguo geograficamente à Stanford e longe de qualquer coincidência, o Vale do Silício é reconhecido como a Meca da Tecnologia. Em meio à diversidade de origens – 40% das pessoas que ali trabalham são estrangeiras de nascimento –, há uma atmosfera de bits e bytes que paradoxalmente também desperta valores humanos como competências socioemocionais, trabalho em equipe, comunicação interpessoal, transparência, solidariedade, etc. 

Um marco histórico desse protagonismo da Universidade de Stanford sobre o Vale do Silício foi a fundação da HP, em 1939, pelos estudantes Hewlett e Packard, inicialmente uma pequena empresa de componentes eletrônicos. Desde então, nasceram nessa região nada menos que Google, Instagram, Cisco, eBay, LinkedIn, Netflix, Nike, NVIDIA, Sun Microsystems, Tesla, Yahoo. Além disso, é a instituição de ensino que detém o maior número de prêmios Nobel em todo o planeta. Ademais, como fruto da persistente prática de um tríplice hélice – universidade, empresa e governo – na propulsão da inovação e resolução de problemas, estima-se que 40 mil empreendimentos criados por alunos e egressos geram uma receita anual de US$ 2,0 trilhões, muito próximo ao PIB brasileiro. 

O que torna ainda mais estimulante o magnífico e bem conservado câmpus, ornamentado por dezenas de esculturas de Auguste Rodin, são as bicicletas. Sempre aceleradas (são 13 mil delas, enquanto os carros são proibidos), se deslocam para as bibliotecas, cantinas, alojamentos, ou de um bloco para outro. Naquela tarde ensolarada de primavera, maravilhados em visita à Stanford, testemunhamos cenas prosaicas nesse templo do saber – rapazes e moças de calções, pedalando suas bikes, alegremente a se galantearem. Mas atenção nefelibatas: há casos de atropelamentos, suprema inglória para um turista ou um stanfordista... 

 

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