VARIEDADES

Por que o Brasil gosta tanto de novela, futebol e filmes na TV?

Quando sintonizamos na TV aberta, somos diferentões dos outros países da América Latina

Por Redação
25/12/2017 • 09h35
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Brasileiro gosta de novela, de futebol e de um filmezinho de vez em quando. Isso não é um clichê sendo repetido sem motivo: é dado de pesquisa feita pela Kantar IBOPE Media entre janeiro e outubro deste ano e que revelou que novela, futebol e filmes são, nesta ordem, os três gêneros da TV aberta mais vistos no país.

A pesquisa, feita em mais dez países da América Latina, também mostrou que somos diferentões dos povos da América do Sul e da América Central. Novela só é o gênero favorito no Panamá, no Equador e no Paraguai, e o futebol aparece apenas em terceiro lugar no ranking do Peru – os outros países estudados não dão a mínima para a bola rolando no gramado. Filme desperta o interesse no Paraguai, onde aparece em segundo no ranking, e só.

Daí vêm as perguntas: por que gostamos tanto desses gêneros televisivos e por que somos tão diferentes?

A “culpa” é do… rádio

O hábito de acompanhar tramas de ficção e torná-las parte de nossos assuntos e interesses diários vem de muito antes da TV chegar ao Brasil: sua raiz está no rádio.

“Estes dados sobre novelas, futebol e filmes são atuais, mas o fato é antigo. Lá atrás, a TV trouxe as radionovelas para o seu formato. Começou com os teleteatros, em que tudo era ao vivo, e evoluiu para as novelas como as conhecemos. E sempre foi líder de audiência, de preferência. O gosto pelas histórias, seja nas radionovelas ou nas telenovelas, vai passando de geração para geração”, explica Flávio Ricco, especialista em TV e coautor, ao lado de José Armando Vannucci, do livro “Biografia da TV Brasileira” (Matrix Editora).

Na mesma onda vem o futebol: sempre presente nas transmissões de rádio, o esporte migrou para a TV com maestria e garante, até hoje, seu lugar no coração e na rotina dos telespectadores. Para milhões de brasileiros, é um compromisso acompanhar a rodada do campeonato da vez toda quarta-feira e todo fim de semana pela TV.

Já os filmes, tal como a música no rádio, entram no ranking naquele espaço em que as pessoas querem se distrair um pouco, ficar por dentro das produções dos grandes estúdios – mesmo que elas já tenham sido exibidas nos cinemas, na TV a cabo e estejam disponíveis para streaming.

Orgulhos nacionais

Ligia Prezia Lemos, doutora em Ciências da Comunicação pela USP e membro do Centro de Estudos de Telenovela da USP e do Observatório Iberoamericano de Ficção Televisiva, destaca que a novela e o futebol não saem do gosto popular por uma questão identitária.

“Aquela história de que o Brasil tem novela, futebol, carnaval e samba é verdade. A novela e o futebol reforçam a identidade do brasileiro e ainda são motivo de orgulho, apesar de qualquer escorregão, de qualquer 7 x 1”, afirma a especialista.

Retrato da sociedade

Ela também observa que as novelas, especificamente, têm uma ligação muito grande com a população porque os brasileiros se identificam com as tramas, que devolvem e reforçam essa identificação, acompanhando o que ocorre na sociedade. Em uma frase, ela crava: “O Brasil se vê nas novelas e as novelas veem o Brasil.”

O reencontro de Clara (Bianca Bin) com Josafá (Lima Duarte) e Mercedes (Fernanda Montenegro) em “O Outro Lado do Paraíso”: a novela é um retrato do Brasil (Globo/Paulo Belote/Divulgação)

Isso se dá especialmente nas novelas das 21h, que tratam de questões sociais e cotidianas em que todas as pessoas conseguem se enxergar. “A novela das nove representa a sociedade, com seus problemas e anseios de todas as idades. A atual, ‘O Outro Lado do Paraíso’, tem desde a criança [Tomaz, vivido por Vitor Figueiredo] até os idosos [Josafá, interpretado por Lima Duarte, Mercedes, de Fernanda Montenegro, e Caetana, vivida por Laura Cardoso]”, diz Flávio. “Com o passar do tempo, a novela aproximou-se da população. Claro que com uma dose de fantasia, mas é um retrato do Brasil atual.”

Além disso, Ligia lembra que “a novela tem essa característica de obra aberta, que muda ao longo da trama por conversar com o telespectador”, o que só aumenta o vínculo.

Bola globalizada

Quanto ao futebol, não tem 7 x 1 que faça o brasileiro desistir de acompanhar campeonatos regionais, nacionais, internacionais e até regionais de outros países, como o espanhol, o italiano e o inglês, entre outros.

Flávio atribui boa parte desse interesse ao espetáculo que se faz também em torno do futebol. “O noticiário contribui muito para que as pessoas queiram saber o que está acontecendo. É o Neymar, que todos querem ver, são os jogadores brasileiros espalhados pelo mundo. Hoje, tem TV aberta transmitindo campeonato chinês por causa disso, o que é ótimo.”

Alienação? Longe disso!

A ausência de programas jornalísticos entre as preferências dos brasileiros na TV aberta chama a atenção; com tantas questões importantes ocorrendo no país, será que não existe interesse nas atualidades, como há na Costa Rica e no Uruguai?

Os especialistas não veem a situação como falta de interesse. Para Flávio, o simples fato de as novelas da Globo serem intercaladas por telejornais já os coloca em um espaço de interesse.

Ligia, por sua vez, considera que as novelas sejam uma narrativa da nação, e que muitas pessoas prefiram se informar por meio delas sobre as questões que dizem mais respeito ao dia a dia em vez de acompanhar nos telejornais os índices matemáticos ou políticos. Assistir às novelas, portanto, é sim uma forma de o público se manter atualizado.

“As novelas trazem questões que vão além da ficção. Se quisesse se afastar da realidade, o brasileiro não veria as novelas das nove, com temáticas sociais”, afirma. E são justamente elas que mais atraem a audiência e se tornam assunto no dia a dia. Não é isso que faz as pessoas serem alienadas, não. (MDEMULHER)

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