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Teatro e ancestralidade

Espetáculo leva amor negro e resistência às praças de Campo Grande

“Beije Seu Preto em Praça Pública” aposta na rua como espaço de afeto, memória e ação política

O espetáculo foi pensado principalmente para o espaço público Foto: Divulgação
O espetáculo foi pensado principalmente para o espaço público Foto: Divulgação

O espetáculo Beije Seu Preto em Praça Pública chega aos espaços públicos de Campo Grande propondo uma reflexão sobre amor negro, ancestralidade e resistência, a partir de uma encenação pensada para a rua e para o encontro direto com o público.

A montagem apresenta Clara e Bento, personagens que se comunicam por cartas enquanto vivem em meio ao medo, à violência e ao desaparecimento de pessoas próximas. Entre angústias e ausências, a escrita se transforma em gesto de afeto e sobrevivência. O amor aparece como força que insiste, mesmo diante das estruturas que historicamente negam às pessoas negras o direito de existir plenamente.

Subvertendo Imagens Recorrentes

Criador e dramaturgo do espetáculo, Leonardo de Medeiros afirma que a obra nasce do desejo de subverter imagens recorrentes.

“A gente sempre vê corpos pretos num lugar muito específico, de sofrimento ou de morte. Queríamos falar também do amor como possibilidade real, como esperança e como fúria”, diz.

Para a construção da cena, o grupo adotou a metodologia “A Escuta da Criação”, desenvolvida pela diretora Ligia Tristão Prieto. Segundo Leonardo, o processo parte da experiência íntima para alcançar o coletivo. “Não é revisitar a dor para se ferir de novo, mas transformar essa ferida em linguagem, em gesto político”, afirma.

O espetáculo foi pensado principalmente para o espaço público, com cenário e figurino marcados pela estética dourada e pelo uso de estruturas metálicas. Para Ligia, o metal simboliza força e permanência. “As personagens precisavam se apresentar como grandiosas, intocáveis. O elenco construiu a cena a partir da escuta dos seus desejos, partilhas e denúncias. É um convite ao respeito e à liberdade de existência”, diz a diretora.

Democratização da Fala e Revoluções Negras

A atriz e artista Sofepoar, que integra o elenco, destaca a importância de levar esse discurso para fora dos espaços tradicionais do teatro. “Quando a gente fala de amor afrocentrado em praça pública, estamos democratizando a fala. É uma forma de mostrar que corpos pretos estão organizados, criando suas próprias revoluções”, afirma.

O processo de preparação contou ainda com a participação da preparadora corporal Gal Martins, que trabalhou com a metodologia da “Dança da Indignação”, explorando tensões do corpo, ancestralidade e organização coletiva. “É um reencontro com a gente mesmo, com nossas raízes e com a força da matilha”, resume Leonardo.

Financiado com recursos da Política Nacional Aldir Blanc, o projeto aposta na rua como espaço de memória, enfrentamento e celebração. “A gente faz um pacto de não ser apenas estatística”, diz Sofepoar. “É sobre viver para além delas”.

O grupo se apresenta nesta sexta-feira (23), às 19h, na Praça Ary Coelho; e no dia segunda-feira (26), às 19h, na Plataforma Cultural, na Avenida Calógeras, 3015.