
A chamada geração Z, formada por jovens considerados nativos digitais, tem demonstrado um comportamento diferente no mercado de trabalho formal. Dados recentes apontam que a rotatividade entre trabalhadores de 18 a 29 anos é elevada em todo o Brasil, e Três Lagoas segue a mesma tendência.
De acordo com dados do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), cerca de 40% dos jovens nessa faixa etária trocam de emprego a cada 12 meses no país
No cenário local, informações do Observatório de Emprego da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação indicam que a rotatividade do mercado de trabalho em Três Lagoas chegou a 66,4% em 2025, embora os dados não especifiquem a idade dos trabalhadores.
Na Casa do Trabalhador, o fenômeno é percebido diariamente, especialmente entre os jovens. Segundo o gestor da unidade, Sidney de Abreu, muitos não criam vínculo com as empresas por não aceitarem o salário inicial oferecido ou por optarem por atividades informais ligadas à tecnologia.
“Muitos preferem permanecer em casa, trabalhando com tecnologia ou buscando atividades digitais, e acabam não aceitando a remuneração inicial do mercado formal”, explicou
Sidney também destaca que parte desses jovens não busca qualificação profissional, mesmo com a oferta de cursos gratuitos ou programas de aprendizagem remunerada, como os realizados em parceria com o Sistema S, por meio do Senai e do Sesi.
“Há jovens que não têm interesse na qualificação e também não aceitam começar com um salário mínimo. Isso dificulta a permanência no emprego”, afirmou.
A dificuldade em manter trabalhadores jovens já impacta empresas do município. Uma grande rede de fast food, instalada em Três Lagoas há dois anos, chegou a planejar funcionamento 24 horas, mas não conseguiu ampliar os serviços por falta de mão de obra, justamente do público jovem, que é o perfil da empresa.
“A rede tem nos procurado, questionado e buscado apoio, mas ainda não conseguimos atender essa demanda por falta de profissionais”, relatou o gestor da Casa do Trabalhador, Sidney de Abreu.
Apesar do cenário desafiador, há exemplos positivos. Uma rede de supermercados do município aposta na contratação de jovens por meio do programa Jovem Aprendiz. Segundo a gerente administrativa, Vanessa Inácio, os jovens desempenham papel fundamental na empresa.
“Eles contribuem muito para a formação de novos talentos. Aprendem com a gente e também trazem uma mentalidade nova para a empresa”, destacou
A estudante Renata Souza, de 16 anos, é jovem aprendiz e atua no setor administrativo há dois meses. Organizada, ela já planeja o futuro com o dinheiro que recebe.
“Tenho duas contas: uma para uso pessoal e outra para administrar meu dinheiro. Quero investir em cursos e abrir meu próprio negócio”, contou
Também com 16 anos, Ingrid da Silva trabalha em um supermercado e afirma que a experiência tem contribuído para seu amadurecimento pessoal.
“Estou gostando bastante. Aprendo coisas novas, ajudo minha mãe em casa e também consigo guardar um pouco para mim”, disse
Para especialistas e gestores, dar espaço ao jovem no mercado formal vai além de oferecer emprego. É investir em formação, inovação e no futuro da sociedade. Ao mesmo tempo, o cenário reforça a necessidade de diálogo entre empresas e jovens para alinhar expectativas, estimular a qualificação e reduzir a alta rotatividade no mercado de trabalho.