
O Carnaval é sinônimo de festa, encontros e celebração. Mas, paralelamente ao clima de descontração, o período também acende um alerta na saúde pública. Dados da Secretaria Municipal de Saúde mostram que, apenas em 2024 e 2025, foram registradas 7.726 notificações de infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) no município. A sífilis aparece como a mais frequente.
Para a ginecologista Ranimi Tabosa Sanches, o problema não está na festa em si, mas nos comportamentos associados a ela.
“O Carnaval não é o vilão. O que aumenta é a vulnerabilidade das pessoas, principalmente pelo consumo excessivo de álcool, que reduz a percepção de risco e favorece relações ocasionais sem proteção”, explica.
Sífilis preocupa mais que HIV em número de casos
Embora o HIV ainda seja amplamente temido, os números mostram que a sífilis tem apresentado crescimento mais expressivo no país. Entre 2018 e 2023, foram registrados cerca de 77 mil novos casos de HIV, enquanto os casos novos de sífilis se aproximaram de 950 mil no mesmo período.
Segundo a especialista, um dos principais desafios é que muitas ISTs são silenciosas.
“A maioria dos pacientes é assintomática. Não existe ‘cara de doença’. A pessoa pode estar infectada e não apresentar nenhum sinal evidente”, afirma.
Quais são os sintomas da sífilis?
Apesar de frequentemente silenciosa, a sífilis pode apresentar manifestações clínicas. Os primeiros sinais costumam incluir:
- Manchas pelo corpo, geralmente indolores
- Lesões ulceradas
- Feridas na região genital
- Alterações que podem atingir palmas das mãos e plantas dos pés
Em estágios mais avançados, as lesões podem se espalhar e se agravar. O problema é que, como nem sempre há dor ou desconforto significativo, muitos pacientes não procuram atendimento médico.
Homens lideram notificações
O levantamento municipal aponta maior número de notificações entre homens. A explicação não é simples, mas pode envolver fatores comportamentais e até biológicos.
“Os homens costumam procurar menos os serviços de saúde e realizar menos exames de rotina. Também pode haver maior manifestação de sintomas neles, o que leva à notificação”, pontua a médica.
Ela alerta que qualquer sinal deve ser investigado: verrugas, úlceras, corrimentos, dor durante a relação ou odor forte são motivos suficientes para procurar atendimento.
Outras ISTs também preocupam
Além da sífilis e do HIV, outras infecções preocupam no período carnavalesco, como HPV e hepatites virais.
O HPV, por exemplo, está diretamente associado ao câncer de colo do útero e tem como principal forma de transmissão o contato sexual. A vacinação é uma das estratégias mais eficazes de prevenção.
“É fundamental manter o cartão vacinal atualizado. A vacina contra HPV e hepatite é uma ferramenta poderosa na redução dos casos”, reforça Ranimi.
Prevenção e Carnaval
A prevenção vai além do uso do preservativo, embora ele continue sendo indispensável. A especialista recomenda:
- Evitar o consumo excessivo de álcool
- Manter hidratação constante
- Alimentar-se adequadamente
- Usar preservativo em todas as relações
- Realizar testagem após situações de risco
A combinação de calor intenso e consumo de bebidas alcoólicas pode potencializar comportamentos impulsivos. Pequenas decisões preventivas fazem diferença significativa nos índices de transmissão.
Responsabilidade também faz parte da festa
Para a ginecologista, é possível aproveitar o Carnaval sem comprometer a saúde.
“Não é porque é festa que as pessoas precisam agir fora do seu comportamento habitual. É possível curtir com responsabilidade”, afirma.
Ela faz um alerta direto aos jovens: enquanto uma gravidez não planejada pode ser reorganizada ao longo do tempo, uma infecção sexualmente transmissível pode deixar sequelas permanentes.
“O filho pode mudar planos. A doença pode mudar a sua saúde para sempre.”
Com milhares de notificações já registradas no município, o recado das autoridades de saúde é claro: prevenção continua sendo o melhor bloco para desfilar no Carnaval.