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Dia Nacional da Visibilidade Trans

Subnotificação oculta violência real contra pessoas trans em MS, aponta Antra

Estado ocupa a 17ª posição no ranking nacional de assassinatos de travestis e mulheres trans

Levantamento revela que 82% dos assassinatos no país ocorrem com crueldade extrema - Reprodução/Shutterstock
Levantamento revela que 82% dos assassinatos no país ocorrem com crueldade extrema - Reprodução/Shutterstock

No Dia Nacional da Visibilidade Trans, celebrado em 29 de janeiro, dados do novo Dossiê da Associação Nacional de Travestis e Transexuais ANTRA escancaram a permanência da violência letal contra essa população em Mato Grosso do Sul, que registrou dois assassinatos de pessoas trans em 2025 e ocupa a 17ª posição no ranking nacional, conforme levantamento divulgado nesta segunda-feira (26).

O estado apresenta uma oscilação nos índices após atingir o pico de cinco mortes anuais entre 2022 e 2023, mas o cenário local ainda preocupa devido à subnotificação e à precariedade das políticas de proteção. Em nível nacional, o Brasil mantém a marca de país que mais mata pessoas trans, com o Ceará e Minas Gerais no topo da lista, acumulando oito registros cada um

Retrato da violência em Mato Grosso do Sul

O histórico de violência no Mato Grosso do Sul revela uma tendência de instabilidade. Entre 2017 e 2020, o estado manteve um padrão de dois assassinatos por ano, porém os números saltaram para cinco casos anuais em 2022 e 2023, o que elevou MS para a 11ª posição no ranking nacional da época.

Em 2024, houve a redução para um caso e, em 2025, foram registrados dois assassinatos. Entretanto, a ANTRA aponta que Mato Grosso do Sul integra o grupo de estados onde a violência contra pessoas trans apresenta alto grau de subnotificação, especialmente fora da Capital, o que impede a mensuração real do número de agressões, tentativas de homicídio e assassinatos, cenário agravado pela ausência de dados oficiais desagregados por identidade de gênero.

O perfil da violência letal no Brasil

O dossiê aponta que travestis e mulheres trans negras e empobrecidas representam o alvo preferencial de crimes violentos letais intencionais e compõem a imensa maioria das vítimas. Cerca de 77% das pessoas assassinadas tinham menos de 35 anos e a prostituição aparece como a fonte de renda mais frequente entre as vítimas, o que amplia a vulnerabilidade desse grupo diante da ausência de proteção estatal.

A maioria dos crimes ocorre durante a noite em vias públicas e desertas, mas o ambiente doméstico e os espaços privados também registram ocorrências graves cometidas por parceiros ou clientes.

Crueldade

Os assassinatos registrados em 2025 exibem um padrão de violência extrema em 82% dos casos analisados, com o uso de tortura, espancamentos severos e múltiplos golpes. O relatório descreve execuções com dezenas de tiros ou facadas e ataques direcionados a características corporais específicas como seios, o que caracteriza o ódio de gênero como motivação central das agressões.

O descarte dos corpos em terrenos baldios, valas rurais e rios completa o ciclo de desumanização identificado pelos pesquisadores. Em muitos episódios, os agressores utilizam o fogo para carbonizar as vítimas e apagar vestígios, enquanto a impunidade se mantém elevada pela dificuldade de identificação dos autores.

Caso Dandara Vick

Em 22 de março de 2025, Dandara Vick, mulher trans de 34 anos, foi assassinada dentro de uma cela do Instituto Penal de Campo Grande (IPCG). Dandara estava em isolamento com outros dois internos, segundo informações da equipe penal.

A vítima foi encontrada com pés e mãos amarrados e uma toalha no pescoço, utilizada para asfixia. Aos policiais, os autores afirmaram que havia desavenças entre eles e relataram que a agressão ocorreu durante uma luta corporal. Em depoimento, disseram que “matamos porque ele tentou nos esfaquear com um objeto pontiagudo

A perícia identificou na cela objetos pontiagudos, que podem ter sido utilizados durante a briga. Os envolvidos também alegaram que as amarras foram feitas após a morte, versão registrada no boletim de ocorrência.

O principal autor do crime já possuía histórico de reincidência violenta dentro de unidades prisionais de Mato Grosso do Sul. Ele foi acusado de lesão corporal dolosa após agredir outro detento no presídio de Dourados, na companhia de mais três internos, onde a vítima teve corte na cabeça e precisou de atendimento médico.

Antes disso, em 2020, o mesmo detento foi acusado de participar do assassinato de Valmir Pereira, de 38 anos, no Presídio de Paranaíba, onde a perícia apontou estrangulamento e agressões com objeto de madeira, e apreendeu uma corda artesanal conhecida como “tereza” e um pedaço de madeira.