
As estatísticas de segurança pública expõem uma ferida aberta: o assédio contra mulheres não escolhe hora nem lugar. Ocorre à luz do dia, em ruas e praças que deveriam ser símbolos de liberdade, mas que se tornaram campos de batalha para a integridade feminina, com risco iminente para nossas crianças.
A vulnerabilidade nesses espaços não é uma falha de quem transita; é a oportunidade covarde aproveitada por predadores que se escondem no anonimato ou na distração alheia. Nesses espaços, o acesso é livre e a má intenção não encontra barreiras.
Embora a culpa seja exclusivamente do agressor, essa realidade cruel impõe às mulheres uma “consciência situacional” permanente. Ou seja, estar alerta ao entorno e confiar nos instintos tornaram-se estratégias de sobrevivência. É o perfil de uma sociedade que falha em seu dever mais básico: garantir o direito de ir e vir sem medo e em segurança.
Este artigo é um alerta, especialmente, para os homens. A proteção de mulheres e crianças em situações de perigo não é uma cortesia ou um ato de cavalheirismo; é um dever ético e civilizatório inegociável. O “homem correto” não é aquele que apenas não agride, mas aquele que não se omite diante da agressão.
O alerta deve soar ao menor sinal de desconforto alheio. Se uma mulher está sendo cercada ou seguida, a intervenção de um cidadão atento é o que separa o susto da tragédia. Da mesma forma, a vigilância sobre a infância deve ser absoluta e coletiva. Não há espaço para hesitação.
Não podemos normalizar o medo. A segurança pública exige policiamento, mas se sustenta na desaprovação social imediata de comportamentos predatórios. O assédio recua quando o agressor percebe que está sendo vigiado por uma rede de olhares protetores.
É hora de transformar o medo em compromisso. Que cada cidadão seja um escudo contra o abuso. Nossas ruas precisam voltar a ser espaços de convivência, e não territórios de ameaça. A ferida aberta precisa ser tratada e curada por meio de ações comprometidas com a cidadania e justiça social.
*José Augusto Morila Guerra é médico pediatra e Membro da Academia Maçônica de Letras MS.