
O mercado da carne bovina inicia 2026 sob um novo arranjo que já começa a ser sentido em Mato Grosso do Sul, um dos principais polos pecuários do país. A combinação entre a salvaguarda imposta pela China às exportações brasileiras e a redução da oferta de animais para abate altera estratégias de frigoríficos, produtores e exportadores logo nas primeiras semanas do ano.
A medida chinesa, anunciada no fim de dezembro, não interrompe embarques, mas limita volumes e obriga o setor a reorganizar contratos e destinos. Em Campo Grande, onde o ritmo da pecuária influencia diretamente a economia local, a expectativa é de um mercado menos eufórico do que em 2025, quando o Brasil bateu recordes de exportação.
Segundo o analista Fernando Iglesias, da consultoria Safras & Mercado, o impacto inicial já aparece no movimento das indústrias frigoríficas. Algumas plantas reduziram o ritmo de abate e passaram a trabalhar com maior capacidade ociosa, numa tentativa de se ajustar ao novo cenário internacional.
“A China continua comprando, mas em volume menor. Ao mesmo tempo, o Brasil vive uma inversão do ciclo pecuário, com menos oferta de animais terminados”, afirma Iglesias. A consultoria projeta queda de cerca de 8% nas exportações de carne bovina em 2026, enquanto a produção deve recuar entre 3% e 4% em relação ao ano passado.
Esse encolhimento da oferta, impulsionado pela retenção de fêmeas e pelo alto custo da reposição — especialmente bezerros e bois magros — tende a sustentar os preços do boi gordo, mas sem espaço para disparadas. A expectativa de arrobas acima de R$ 400, que chegou a circular no mercado, perdeu força após a decisão chinesa.
“O cenário agora é de oscilações ao longo do ano, com altas pontuais e momentos de pressão, mas sem movimentos explosivos”, diz o analista.
Estratégias de Mercado e Diversificação
Diante da limitação chinesa, o setor aposta na diversificação de mercados. Países como Estados Unidos e integrantes da União Europeia aparecem como alternativas, além da expectativa em torno da abertura do mercado japonês. Ainda assim, especialistas avaliam que esses destinos não devem compensar totalmente a redução do apetite chinês no curto prazo.
Em Mato Grosso do Sul, onde a pecuária é base econômica de dezenas de municípios, o novo ciclo exige cautela. Produtores lidam com custos elevados, enquanto frigoríficos ajustam estratégias para equilibrar oferta, demanda e margens em um ano que promete ser de transição no mercado da carne bovina.