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O país que cobra produtividade, mas ainda não aprendeu a cuidar

Leia o Artigo da edição deste sábado (29) do Jornal do Povo

Leia o Artigo da edição deste sábado (29) do Jornal do Povo. (Foto: Arquivo Pessoal)
Leia o Artigo da edição deste sábado (29) do Jornal do Povo. (Foto: Arquivo Pessoal)

A ampliação da licença-paternidade para até 20 dias, aprovada na Câmara pelo PL 3.935/2008, coloca o Brasil diante de uma discussão que há décadas foi empurrada para depois: como queremos que o trabalhador concilie vida familiar, saúde mental e desempenho profissional? A resposta, até agora, tem sido contraditória. Exigimos produtividade de padrão internacional, mas mantemos políticas de cuidado que pertencem a um Brasil pré-digital, pré-flexível e pré-humano.


Os números mostram o tamanho do problema. A Associação Nacional de Medicina do Trabalho reconhece que cerca de 30% dos trabalhadores brasileiros apresentam sintomas de burnout. Os afastamentos por transtornos mentais, ansiedade, depressão e estresse crônico, cresceram 134% entre 2022 e 2024, segundo levantamento da ONU Brasil. Estamos falando de quase meio milhão de pessoas afastadas só em 2024. Não é uma crise silenciosa: é uma epidemia de exaustão profissional.


Ainda assim, o país insiste em manter um modelo de parentalidade que ignora completamente a vida real das famílias. Cinco dias de licença para um pai significa, na prática, delegar a quase totalidade do cuidado a uma única pessoa, geralmente a mãe. Isso não é só injusto, é improdutivo. Diversos estudos internacionais mostram que, quando homens assumem uma parte mais ativa nos primeiros dias e semanas após o nascimento, há impactos positivos na saúde emocional da família, no desenvolvimento infantil e até na permanência das mulheres no mercado de trabalho.


É justamente essa redistribuição do cuidado que reforça a lógica econômica por trás da licença ampliada. Em países que adotaram políticas mais longas e flexíveis, as taxas de retorno ao trabalho após a parentalidade aumentaram, a rotatividade diminuiu e a produtividade cresceu de maneira mais estável. Não se trata de romantismo: trata-se de racionalidade. Investir em tempo de cuidado é mais barato do que lidar com a explosão de adoecimento mental no mercado brasileiro.


O estudo “People at Work 2023”, do ADP Research Institute, revela que 67% dos brasileiros afirmam sofrer impactos negativos do estresse nas suas rotinas de trabalho. Em setores de alta exigência, isso se traduz em atrasos, falhas, conflitos, baixa criatividade e, claro, perda de talentos. O país já paga caro por negligenciar o equilíbrio entre vida e trabalho, e continuar adiando a discussão sobre licença-paternidade só prolonga esse prejuízo.


A ampliação do benefício também enfrenta resistência baseada no argumento de que micro e pequenas empresas sofreriam com ausências prolongadas. Mas essa narrativa desconsidera que o impacto financeiro de curto prazo é menor do que o custo da rotatividade e do adoecimento. Empresas bem estruturadas conseguem planejar escalas, reorganizar funções temporariamente e ajustar rotinas, e mesmo as pequenas podem se beneficiar, no futuro, de políticas públicas que compensem parte desse período. A questão é menos sobre viabilidade e mais sobre prioridade.


É evidente que a licença de 20 dias ainda está longe do ideal observado em países que investem seriamente em políticas de cuidado. Mas é um início necessário. Um país que cresce não é o que exige mais horas, e sim o que organiza melhor essas horas. É o que entende que tempo não é gasto: é investimento.


O Brasil precisa decidir se quer continuar apostando em um modelo de trabalho sustentado pelo cansaço, pela culpa e pela precarização emocional, ou se está pronto para adotar práticas que realmente melhoram produtividade, inovação e bem-estar. Ampliar a licença-paternidade é um passo essencial nessa direção.


Porque nenhum país se torna competitivo quando metade da sua força de trabalho está exausta, e a outra metade permanece longe demais do início da vida dos próprios filhos.