
O avanço do Corredor Bioceânico, somado ao crescimento industrial acelerado de Mato Grosso do Sul, já provoca mudanças estruturais na dinâmica das rodovias federais que cortam o estado.
O aumento do fluxo de veículos, especialmente de cargas pesadas e de origem estrangeira, amplia os desafios da fiscalização, da segurança viária e do combate ao crime organizado.
Em entrevista exclusiva à Massa FM Campo Grande, o superintendente da Polícia Rodoviária Federal (PRF) em Mato Grosso do Sul, o inspetor João Paulo Pinheiro Bueno, aponta que esse cenário vem se desenhando há pelo menos uma década e tende a se intensificar com a consolidação do corredor internacional.
“De uns dez anos para cá, o fluxo de veículos no Mato Grosso do Sul mudou totalmente. Hoje as rodovias têm muito mais veículos de carga e de passeio, e isso tende a crescer ainda mais com a chegada do Corredor Bioceânico.”
Tráfego pesado e risco nos perímetros urbanos

O crescimento do tráfego de caminhões ocorre tanto na região leste, impulsionada pela cadeia da celulose, quanto no oeste, com o transporte de minério e produtos vindos da fronteira. Rodovias como a BR-262 passaram a concentrar veículos pesados ao longo de toda a extensão.
Esse cenário aumenta o risco principalmente nos trechos urbanos. Campo Grande e Dourados concentram hoje os pontos de maior acidentalidade no estado, devido à convivência entre veículos leves e caminhões de grande porte em áreas de tráfego intenso.
Comportamento do motorista ainda pesa mais que a estrutura
Embora a infraestrutura das rodovias seja um fator relevante — com longos trechos de pista simples e ausência de acostamento — a PRF aponta que o principal problema segue sendo o comportamento do condutor.
“Os principais fatores dos sinistros continuam sendo a desatenção, as ultrapassagens em locais proibidos e o excesso de velocidade”, explicou o superintendente.
A velocidade, segundo ele, nem sempre causa o acidente, mas agrava suas consequências, transformando ocorrências leves em sinistros graves ou fatais.
Tráfico internacional muda de perfil em MS
Na fronteira, a dinâmica do crime organizado também se transformou. A maconha perdeu protagonismo para a cocaína, droga com maior valor agregado e impacto mais severo.
“Antes, nossas apreensões giravam em torno de duas toneladas por ano. Em 2025, chegamos a 14 toneladas de cocaína apreendidas”, destacou Bueno.
Segundo a PRF, o estado passou a ser utilizado como corredor estratégico por organizações criminosas que atuam no tráfico internacional.
Tecnologia para suprir falta de efetivo
Com mais de 4 mil quilômetros de rodovias federais e cerca de 615 policiais no estado, a PRF aposta no uso intensivo de tecnologia para ampliar a capacidade de fiscalização. Monitoramento por câmeras, drones, cães farejadores e viaturas com internet satelital fazem parte da estratégia.
“Muitas vezes você sai de Campo Grande e já perde o sinal do celular. A internet via satélite permite manter comunicação e agir com mais rapidez”, afirmou.
Medicamentos ilegais viram alerta de saúde pública
Outro fenômeno que chama atenção é o aumento das apreensões de medicamentos irregulares, especialmente as chamadas canetas emagrecedoras. O volume apreendido cresce de forma acelerada.
“No ano passado foram cerca de 5.300 unidades. Só em janeiro deste ano, já apreendemos 1.300”, relatou.
Para a PRF, o problema extrapola o campo criminal e atinge diretamente a saúde pública, já que os produtos não possuem controle sanitário.
Fiscalização além do crime
A atuação da PRF também envolve temas menos visíveis, como a fiscalização de antenas de internet via satélite instaladas de forma irregular nos veículos e o combate à exploração sexual de crianças e adolescentes em pontos vulneráveis das rodovias.
Esse trabalho ocorre de forma contínua, com mapeamento de áreas sensíveis e ações preventivas ao longo de todo o ano.
Educação e prevenção
Campanhas educativas seguem como uma das principais ferramentas para reduzir mortes no trânsito. A PRF avalia que ações de conscientização sobre velocidade, uso do cinto de segurança, celular ao volante e planejamento de viagem ajudaram a mudar comportamentos ao longo dos anos, embora a imprudência ainda seja recorrente.
Orientação ao motorista
Diante do novo cenário viário de Mato Grosso do Sul, a principal orientação da PRF é planejamento e prudência antes de pegar a estrada.
“Revisar o veículo, respeitar a sinalização, evitar ultrapassagens proibidas e não usar o celular são atitudes simples que fazem diferença”, reforçou o superintendente.
Ele também lembra que a fiscalização não depende apenas da presença visível da viatura.
“Mesmo que o motorista não veja a viatura, pode estar sendo monitorado. A PRF está fiscalizando.”
Confira a entrevista na íntegra: