
O avanço dos exames genéticos começa a mudar a forma como parte da população encara a saúde, com maior ênfase na prevenção e no planejamento de longo prazo. A proposta é usar informações do DNA para antecipar riscos, orientar hábitos e apoiar decisões médicas mais personalizadas.
Segundo o enfermeiro e especialista em análises clínicas Gustavo Augusto R. Barbosa, responsável técnico do laboratório Labormed, em Campo Grande, a maior mudança está no acesso a painéis genéticos que vão além do diagnóstico de doenças já instaladas.
“A ideia é se antecipar, entender como o corpo funciona e agir antes que os problemas apareçam”, afirma.
Os exames analisam centenas de genes e fornecem dados sobre metabolismo, absorção de nutrientes, predisposição a doenças cardiovasculares e metabólicas, resposta ao consumo de cafeína, carboidratos e até fatores ligados à longevidade. As informações servem de base para nutricionistas, médicos e outros profissionais da saúde ajustarem condutas de forma mais individualizada.
Entre os testes disponíveis, há painéis mais amplos, voltados à avaliação geral da saúde e da ancestralidade, e outros direcionados a públicos específicos. Um deles é voltado a crianças de até dois anos e mapeia riscos genéticos para doenças hereditárias ainda na primeira infância, a partir de coleta simples de saliva.
Há também exames voltados ao público feminino, que analisam predisposições genéticas relacionadas à fertilidade, câncer e absorção de vitaminas, minerais e colágeno. Segundo Gustavo, esse tipo de informação ajuda a evitar suplementações genéricas e tratamentos sem base individual. “Nem todo organismo responde da mesma forma”, diz.
Outro foco dos painéis genéticos é o desempenho físico e mental. Alguns testes avaliam fatores ligados à alta performance, recuperação muscular, estresse e saúde emocional, temas cada vez mais presentes no cotidiano profissional.
Apesar do volume de dados gerado — alguns exames ultrapassam cem páginas de resultados —, os testes incluem acompanhamento com geneticista, responsável por interpretar as informações e orientar os próximos passos. O profissional não prescreve tratamentos, mas indica caminhos e especialistas adequados a cada caso.
Para o especialista, o maior desafio ainda é cultural. “As pessoas costumam procurar exames quando já estão doentes. A genética permite inverter essa lógica”, afirma. Em um cenário de envelhecimento da população e aumento de doenças crônicas, a prevenção baseada em dados passa a ser vista como uma ferramenta estratégica para melhorar a qualidade de vida.