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Exposição em Londres leva incêndios do Pantanal em MS ao noticiário internacional

Reportagem do jornal britânico The Guardian e mostra em museu destacam imagens feitas em áreas de Corumbá, Aquidauana e na BR-262 durante grandes incêndios

Devastada pelos incêndios florestais de 2020, a Fazenda Santa Tereza, na Serra do Amolar, foi destruída novamente em 2024 - Foto: Lalo de Almeida
Devastada pelos incêndios florestais de 2020, a Fazenda Santa Tereza, na Serra do Amolar, foi destruída novamente em 2024 - Foto: Lalo de Almeida

As queimadas que atingiram o Pantanal em Mato Grosso do Sul nos últimos anos estão no centro de uma exposição fotográfica em Londres e viraram tema de reportagem do The Guardian, um dos principais jornais do Reino Unido, conhecido pela cobertura internacional, ambiental e investigativa.

A mostra reúne imagens do fotógrafo brasileiro Lalo de Almeida, feitas durante os grandes incêndios registrados em 2020 e 2024. Parte dos registros foi produzida em regiões do Pantanal sul-mato-grossense, como Aquidauana, Corumbá, Serra do Amolar e ao longo da BR-262.

Na reportagem publicada pelo jornal britânico, Almeida descreve o cenário encontrado durante as viagens como “pure apocalypse”, “puro apocalipse”, em tradução livre, ao relatar o calor intenso, a fumaça densa e o avanço rápido das chamas.

Registros feitos em Aquidauana e na BR-262

Bombeiros de Prevfogo, vindos do Piauí, retornam em um caminhão para combater o incêndio florestal na Fazenda Santa Tereza, em 2020 – Foto: Lalo de Almeida

Segundo o fotógrafo, um dos episódios mais marcantes ocorreu quando ele seguia para uma fazenda na zona rural de Aquidauana, onde brigadistas atuavam no combate ao fogo.

No caminho, um foco aparentemente pequeno se transformou em poucos minutos em um incêndio de grandes proporções.

“O calor insuportável, o barulho da vegetação queimando e a fumaça sufocante, tudo coberto por uma luz alaranjada, é uma cena que nunca vou esquecer”, relatou ao The Guardian.

A reportagem também destaca a situação da BR-262, principal rodovia que corta o Pantanal sul. Em 2020, o trecho ficou cercado por focos de incêndio, obrigando animais a buscarem refúgio em pequenas lagoas às margens da estrada.

Em uma das fotos, dezenas de cervos-do-pantanal aparecem aglomerados em áreas alagadas. Segundo Almeida, “normalmente ariscos, eles pareciam atordoados, sem reagir à nossa presença, sem outra opção de sobrevivência”.

Falta de estrutura e combate limitado ao fogo

O material publicado pelo jornal britânico aponta que, durante o pico dos incêndios, houve dificuldade de resposta organizada. Em uma das viagens, o fotógrafo encontrou um hotel usado como base de apoio cercado pelas chamas e em processo de evacuação.

Em outro momento, ao percorrer a Transpantaneira, ele relatou ter conversado com um brigadista que observava uma ponte de madeira queimar sem possibilidade de intervenção.

“Não há mais nada a ser feito aqui. O fogo no Pantanal só vai acabar quando chover ou quando tudo queimar. O que vier primeiro”, disse o bombeiro, segundo a reportagem.

De acordo com Almeida, em muitos pontos o controle só ocorreu após a chegada das chuvas, o que evidenciou a dependência das condições climáticas para conter os incêndios.

Fauna afetada e sobreviventes desorientados

A reportagem também dá destaque aos impactos sobre a fauna pantaneira. Jacarés, macacos, quatis, tatus, aves e veados aparecem nas imagens vagando por áreas cobertas de fumaça, sem acesso a água ou abrigo.

“Os animais pareciam zumbis, completamente perdidos, sem saber para onde ir”, afirmou o fotógrafo ao jornal.

Um cervo-do-pantanal se refugia em um lago para se proteger dos incêndios que queimam às margens da rodovia BR-262 em Mato Grosso do Sul – Foto: Lalo de Almeida

Ele relata que, além dos animais mortos, o que mais chamou atenção foram os sobreviventes feridos e desorientados, tentando escapar da seca e das chamas.

Exposição em museu de Londres

As imagens integram a exposição “Water Pantanal Fire”, em cartaz no Science Museum London entre fevereiro e maio deste ano. A mostra reúne mais de 60 fotografias que retratam tanto a biodiversidade do Pantanal quanto os efeitos das queimadas.

Além de Lalo de Almeida, a exposição conta com trabalhos do fotógrafo Luciano Candisani. O projeto faz parte da temporada cultural Reino Unido–Brasil 2025/2026, organizada pelo British Council e pelo Instituto Guimarães Rosa.

Segundo os organizadores, o objetivo é apresentar ao público europeu os desafios enfrentados pelo maior bioma alagado do planeta, que se estende por Brasil, Bolívia e Paraguai.

Repercussão internacional e reflexos para MS

Na avaliação de Lalo de Almeida, a repetição dos incêndios em curto intervalo indica que o Pantanal vive um novo padrão climático, marcado por seca prolongada e perda de áreas alagadas.

“Ver tudo isso de perto foi um choque. Me fez pensar que talvez essa seja a nova realidade do Pantanal”, afirmou ao The Guardian.