
Em um mundo cada vez mais guiado por telas, vídeos curtos e debates rasos, o hábito da leitura segue enfrentando resistência — e não apenas entre os jovens. Celebrado nesta quarta-feira (7), o Dia do Leitor reacende uma discussão antiga: como formar leitores em uma sociedade que lê cada vez menos.

Para o escritor Henrique de Medeiros, presidente da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras (ASL), o problema não é novo nem simples.
“A discussão sobre leitura é eterna. Ela existe desde que o texto passou a ser registrado. O que muda é a forma como a sociedade lida com isso”, afirma.
Em entrevista à Massa FM, Medeiros defendeu que o incentivo à leitura precisa deixar de ser episódico e passar a integrar uma política de Estado. “Quanto mais você lê, mais tolerante você se torna, mais entende o mundo. Isso é formação humana. E hoje falta humanismo no ensino”, disse.
Segundo ele, a leitura vai além da formação técnica ou profissional. É também uma experiência sensorial e emocional. “Não é só o livro técnico. É a literatura que te leva a uma viagem, que provoca sentimento, reflexão. Isso ajuda a construir senso crítico”, pontua.
O escritor avalia que a escola — especialmente a pública — tem papel central nesse processo, sobretudo em famílias onde o hábito da leitura não está presente. “Se a criança não é estimulada cedo, depois fica muito mais difícil. A escola precisa ser esse primeiro contato”, afirmou.
Medeiros também relaciona a queda da leitura ao empobrecimento do debate público. “As discussões hoje são superficiais. Se você não concorda comigo, está errado. Isso é falta de leitura, falta de visão de mundo”, criticou.
À frente da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras, ele diz que a instituição tenta romper o distanciamento entre a literatura e a população. A entidade mantém atividades mensais abertas ao público, como leituras comentadas, rodas acadêmicas e palestras com escritores locais e nacionais.
Entre os autores já discutidos estão nomes como Paulo Leminski, Gabriel García Márquez e escritores sul-mato-grossenses como Lino Villachá. Também há encontros dedicados a imortais que marcaram a cultura do Estado, como Manoel de Barros, Nelly Martins e Maria da Glória Sá Rosa.
Para Medeiros, um dos desafios ainda pouco enfrentados é a valorização da história e da literatura produzidas em Mato Grosso do Sul. “Existe uma lacuna enorme no ensino da história do Estado. A formação cultural local ainda é pouco conhecida”, afirmou.
No Dia do Leitor, a mensagem é direta: ler não é apenas um hábito — é uma ferramenta de transformação social. “A leitura abre a mente. Quem não consegue olhar para os lados dificilmente vai avançar”, resume.