
No convívio humano, a aparência costuma ser mais sedutora que a essência. Muitas vezes, o perigo maior não está no adversário declarado, mas naquele que se aproxima com voz mansa e intenções turvas. As duas fábulas a seguir ilustram, com precisão desconcertante, como a ingenuidade diante da dissimulação pode ser fatal.
1ª fábula: A aranha, o camaleão e o gafanhoto
A aranha, o gafanhoto e o camaleão habitavam o aprazível bosque da cidade, convivendo a uma distância segura, pois, reciprocamente, temiam as artimanhas sempre recorrentes. E a aranha foi a primeira a urdir:
― Meu caro gafanhoto, sejamos previdentes e cuidadosos! O camaleão é o rei dos disfarces. Muda de cor, e a gente nem percebe.
― É mesmo! ― completa o gafanhoto.
― Ele fica nos troncos das árvores com cara de “boi-sonso”, e é só passar por perto que ele estica aquela língua imensa e… “crau!”.
― Sim, companheiro, sempre alerta! ― continua a aranha. ― Eu passo o dia fiando, mas é um olho na teia, o outro no camaleão. Você sabe: o seguro morreu de velho. Precaução e caldo de galinha não fazem mal a ninguém, dizia a minha avó.
― Belos conselhos, dona Aranha. Esse camaleão é o mestre da desfaçatez, é o rei da dissimulação.
― Vá por mim! Dificilmente eu me engano! E tem mais! ― disse a aranha sussurrando. ― O camaleão tem uma armadilha mortal! Chegue mais perto, meu caro amigo gafanhoto, que lhe contarei.
Ingenuamente, o gafanhoto se aproxima e se enrosca todo na teia. Diante da morte certa, fica a pensar o quanto foi tolo ao confiar na ardilosa aranha.
2ª fábula: A rã e o escorpião
Um intenso fogo crepitava na floresta, feroz e avassalador. Na margem do largo rio que permeava a região, encontram-se a rã e o escorpião. Lépida e faceira, a rã prepara-se para o salto nas águas salvadoras, enquanto o escorpião (que não sabe nadar) aterroriza-se diante da morte certa: estorricado pelas chamas ou impiedosamente tragado pelas águas revoltas. Arguto, e num esforço derradeiro, implora o escorpião:
― Bela rã, leva-me nas tuas costas na travessia do rio!
― Não confio em ti! Teu ferrão é inclemente e mortal ― responde a rã.
― Jamais tamanha ingratidão. Ademais, se eu te picar, morte certa para nós dois.
― É verdade! ― pensou candidamente o bondoso batráquio. ― Então, suba!
E lá se foram, irmanados e felizes. No entanto, no meio da travessia, a rã é atingida no dorso por uma impiedosa ferroada. Entremeando dor e revolta, trava-se o derradeiro diálogo:
― Quanta maldade! ― exclama a rã, contorcendo-se. ― Não vês que morreremos os dois?
― Sim ― responde o escorpião ―, mas esta é a minha natureza!
Moral das duas fábulas
A convivência humana exige prudência, pois nem todos são o que aparentam ser, e a falsidade — por se disfarçar de amizade — pode ser mais perigosa do que a hostilidade aberta. Confiar cegamente é entregar-se ao risco de cair na teia da aranha ou ser atingido pelo ferrão do escorpião.
Jean de La Fontaine (1621-1695) captou essa essência ao afirmar, em tom jocoso, que, “em vez de humanizar os animais, procurava ressaltar os aspectos animais da natureza humana”. A lição permanece atual: conhecer a verdadeira natureza das pessoas é condição para preservar a própria integridade psíquica (e, por vezes, até mesmo física).