
O crescimento das compras pela internet transformou hábitos de consumo no Brasil e, junto com eles, a dinâmica do trabalho. Em Mato Grosso do Sul, essa mudança ganhou contornos ainda mais evidentes: entregadores que antes atuavam de forma pontual ou informal passaram a se formalizar como microempreendedores individuais (MEIs) e hoje protagonizam um dos segmentos que mais crescem no estado.
Dados da Receita Federal, do Sebrae/MS e da Junta Comercial de Mato Grosso do Sul (Jucems) revelam que o setor classificado como Serviços de Malote Não Realizados pelo Correio Nacional liderou as aberturas de MEIs no segundo quadrimestre de 2025. Foram 1.673 novos registros apenas nesse período, consolidando a atividade como uma das principais portas de entrada para o empreendedorismo formal.
Atualmente, Mato Grosso do Sul conta com 3.986 MEIs formalizados nesse segmento. O avanço chama atenção pela velocidade: em 2021, eram apenas 435 registros. Em quatro anos, o número cresceu 816%, acompanhando a expansão do comércio eletrônico e a demanda por entregas rápidas, flexíveis e descentralizadas.
No panorama geral, o estado soma 219.905 MEIs ativos, com o setor de Serviços concentrando quase dois terços desse total. Dentro dele, a atividade de malote se destaca não apenas pelo volume de registros, mas também pela capilaridade, aparecendo entre as principais ocupações em cidades-polo como Campo Grande, Dourados e Três Lagoas.
E-commerce, baixa barreira e sazonalidade
Embora não seja possível atribuir o crescimento exclusivamente às vendas on-line, a avaliação do Sebrae/MS é de que o avanço do e-commerce, aliado à facilidade de formalização e ao baixo custo inicial, tem papel decisivo. Para atuar, muitas vezes basta o cadastro como MEI e um meio de transporte simples, como motocicleta ou bicicleta.
Segundo o analista-técnico do Sebrae-MS, Carlos Henrique Oliveira, há ainda um fator sazonal relevante.
“Especialmente após o período de fim de ano, quando a demanda por entregas aumenta, muitos trabalhadores que atuavam informalmente buscam a formalização para atender operações de vendas on-line, shoppings, empresas e a logística em geral”, explica.
O levantamento mais recente da Jucems mostra que, considerando atividades principais e secundárias, os setores de Transporte, Armazenagem e Correios somam 3.993 microempreendimentos, ocupando a segunda posição entre os MEIs do estado.
Quem são os novos empreendedores das entregas
O perfil dos microempreendedores revela predominância masculina. Entre os homens, a atividade de malote aparece como principal ocupação econômica, somando 9.777 registros. As mulheres representam 42,7% dos MEIs em Mato Grosso do Sul, com maior concentração no comércio varejista de vestuário e acessórios.
Campo Grande lidera o número de registros na atividade, com 7.915 MEIs, seguida por Dourados (1.826) e Três Lagoas (825), reforçando a relação direta entre centros urbanos, consumo digital e logística de entregas.
MS em destaque no cenário nacional
O protagonismo do estado não se limita à formalização. Dados do Sebrae indicam que Mato Grosso do Sul também se destaca na geração de empregos no setor. Em 2024, foram 739 trabalhadores empregados, colocando o estado entre os líderes nacionais em vínculos formais na atividade.
Além disso, MS aparece entre os estados com melhor remuneração média. Em 2025, o salário médio foi de R$ 2.176,82, acima da média nacional do setor. Outro indicador relevante é a intensidade de geração de empregos: o estado lidera o ranking nacional de empregados por microempreendimento, com média de 12,5 trabalhadores por empresa.
Em nível nacional, o setor contabilizou 13.899 empregados em 2024, com crescimento de 9,16%, e alcançou 259.312 empresas ativas até dezembro de 2025.
A rotina por trás dos números
Os dados ganham rosto na história de Darsley Magalhães, entregador e microempreendedor há cerca de oito meses. Após sete anos como motorista de aplicativo, ele decidiu migrar para as entregas em busca de melhores condições.
“Com o tempo, as taxas ficaram muito altas e os pagamentos cada vez menores. Foi aí que resolvi abrir meu MEI e mudar de área”, relata.
Atuando atualmente em plataformas como a Shopee, Darsley destaca a flexibilidade de horários como principal vantagem.
“Sempre gostei de trabalhar com mais liberdade, porque amo viajar. Esse modelo combinou comigo.”
A rotina, no entanto, está longe de ser simples. Longas esperas para retirada de pacotes, exposição ao sol e à chuva, clientes ausentes e episódios de desrespeito fazem parte do cotidiano.
“Tem gente que começa e desiste no mesmo dia”, afirma.
Ganhos, custos e responsabilidade
Segundo Darsley, o ganho médio diário gira em torno de R$ 220, com pagamento semanal. Trabalhando de segunda a sexta, a renda pode chegar a R$ 1.100 por semana. Em contrapartida, há despesas fixas, como a taxa mensal do MEI, combustível e manutenção do veículo.
“Não é CLT. Não tem férias nem décimo terceiro. É preciso disciplina para guardar dinheiro e planejar”, alerta.
Para ele, o saldo é positivo.
“Já consegui viajar bastante, ir a festivais e até fazer um cruzeiro internacional. Isso só foi possível por causa da flexibilidade. Mas é um trabalho sério, com responsabilidade com o cliente.”