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INOVAÇÃO EM SAÚDE

Jovem de 19 anos recebe tratamento inédito para lesão medular em MS

Paciente de Dourados perdeu os movimentos após tiro acidental e é o 13º no Brasil a receber terapia experimental com polilaminina

Cirurgia foi realizada no Hospital Militar de Área de Campo Grande Foto: CMO
Cirurgia foi realizada no Hospital Militar de Área de Campo Grande Foto: CMO

Um tratamento experimental considerado inovador no campo da neurologia foi realizado pela primeira vez em Mato Grosso do Sul na manhã de quarta-feira (21), no Hospital Militar de Área de Campo Grande (HMilACG). A cirurgia utilizou a polilaminina, uma proteína em fase de testes aplicada em pacientes com lesão na medula espinhal.

A polilaminina é um polímero proteico aplicado em dose única diretamente na medula espinhal

O paciente tem 19 anos, é morador de Dourados e perdeu os movimentos após ser atingido por um disparo acidental no pescoço, no final de outubro de 2025. Ele se tornou o 13º paciente no Brasil a receber o tratamento, autorizado por meio de decisão judicial, dentro do chamado uso compassivo.

“A gente está falando de um paciente muito jovem, com uma lesão grave e sem alternativas terapêuticas disponíveis hoje no mercado. O uso compassivo existe justamente para esses casos”, afirmou o médico pesquisador Olavo Franco, integrante da equipe responsável pelo procedimento.

A cirurgia foi conduzida pelos médicos Wolnei Zeviani, Bruno Cortez e Olavo Franco, com participação de pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), grupo que desenvolve a polilaminina, sob coordenação da professora Tatiana Sampaio. O procedimento contou ainda com apoio institucional da direção do hospital, comandada pelo tenente-coronel André Antunes Mascarenhas.

Segundo Franco, a polilaminina é um polímero proteico aplicado em dose única diretamente na medula espinhal. “Ela é uma proteína muito grande, que não consegue circular pelo corpo. Por isso, precisa ser aplicada dentro da medula”, explicou.

Como a polilaminina atua no tratamento de lesões na medula espinhal

O médico detalhou que a substância atua em dois mecanismos principais. “Um é o efeito anti-inflamatório, que reduz o edema e a morte celular secundária. O outro é a capacidade de criar caminhos no meio da lesão para reconectar os neurônios”, disse.

De acordo com os especialistas, a aplicação da proteína precisa ser acompanhada de fisioterapia intensiva e específica. “A regeneração do sistema nervoso central não acontece sozinha. A fisioterapia é fundamental para ensinar o neurônio a se reconectar de forma funcional”, afirmou Franco. “É isso que permite que o cérebro reconheça essas novas conexões”.

A importância da fisioterapia no processo de recuperação

Os estudos com a polilaminina vêm sendo conduzidos há cerca de 12 anos por uma equipe multidisciplinar formada por neurocirurgiões, neurologistas, fisioterapeutas e pesquisadores. Segundo Franco, todos os pacientes tratados até agora apresentaram algum grau de ganho funcional. “Mesmo quando não é uma recuperação completa, o ganho funcional muda completamente a vida do paciente”, afirmou.

A realização do procedimento em Mato Grosso do Sul é vista como um marco para a expansão controlada da tecnologia. “Nosso desafio agora é formar equipes capacitadas, porque a técnica precisa ser feita exatamente da forma correta”, disse o médico.

O tratamento segue protocolos aprovados pelo Ministério da Saúde e pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Um estudo regulatório está em fase de preparação, etapa necessária para uma eventual ampliação do acesso à terapia no país.

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