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Donos da JBS admitem pagamento de propina para construir Eldorado Brasil

Em delação,empresários admitem pagamento de propina para construir fábrica de celulose

Por Ana Cristina Santos
23/05/2017 • 17h27
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Em delação premiada, os irmãos Joesley e Wesley Batista, donos da JBS, revelaram que a fábrica de celulose da Eldorado Brasil, em Três Lagoas, foi construída por meio de propina para facilitar os financiamentos à companhia, bem como do pagamento de mesada a um procurador da República para receber informações sigilosas de uma das três operações do Ministério Público Federal (MPF) que a envolveram e intervenção de autoridades em favor de interesses da empresa.

 De acordo com o Jornal Valor Econômico, a Eldorado ganhou musculatura no início desta década sob o esquema de corrupção revelado pelos irmãos Batista e viabilizou-se na esteira das relações heterodoxas da controladora J&F com representantes do governo e de fundos de pensão.

Ainda segundo o jornal, em delação, Joesley confirmou o financiamento de R$ 2 bilhões feito pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para a construção da fábrica da Eldorado, que rendeu US$ 30 milhões para o caixa de campanha da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), a pedido do ex-ministro da Fazenda Guido Mantega.

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A rapidez com que a JBS viabilizou o investimento bilionário em celulose sempre incomodou as concorrentes. Conforme o Valor Econômico, também houve pagamento ilegal na captação pela Eldorado de R$ 940 milhões, no fim de 2012, em recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), por meio do fundo FI-FGTS.

À Procuradoria-Geral da República (PGR), Joesley afirmou que ouviu do doleiro Lúcio Funaro, ligado ao ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB), que sua empresa não conseguiria financiamento do FI-FGTS se não pagasse propina e que o pedágio equivaleria a algo entre 3% e 3,5% do valor das operações. O esquema envolvendo recursos do fundo deu origem à Operação Sépsis, um desdobramento da Lava-Jato.

Segundo Joesley, o esquema de Funaro e Cunha também recebeu dinheiro pelo empréstimo de R$ 150 milhões da Eldorado junto à Caixa Econômica Federal, em agosto de 2013. Pelo crédito, foram pagos R$ 4,5 milhões. A arrecadação de propinas na Caixa entre 2011 e 2013 é investigada na Operação Cui Bono?, deflagrada em janeiro, em nova fase da Operação Catilinárias (de 2015).

Com investimentos de R$ 6,2 bilhões, a Eldorado deu início à produção de celulose no fim de 2012. Um dos atingidos pela delação dos irmãos, o presidente Michel Temer (PMDB), na condição de presidente da República em exercício, acompanhou a pomposa cerimônia de inauguração, em dezembro daquele ano, com direito a apresentação do tenor italiano Andrea Bocelli.

Ainda de acordo com o Valor Ecônomo, outro crime relatado pelo empresário atinge mais dois acionistas da Eldorado, os fundos de pensão Petros (de funcionários da Petrobras) e Funcef (da Caixa), cujos investimentos são alvo de investigação do MPF.

Em 2009, quando a companhia atual ainda não existia, mas o grupo já tinha um negócio de reflorestamento, Joesley conta que chegou a um acordo com Guilherme Lacerda, então presidente da Funcef, e Wagner Pinheiro, da Petros, para ampliar as atividades da empresa chamada Florestal. Desse acerto nasceu o FIP-Florestal, usado como veículo de investimento na Florestal e no qual cada fundo de pensão aportou R$ 275 milhões – a J&F e outro sócio, Mário Celso Lopes, entraram com ações da própria Florestal. Conforme Joesley, pela constituição do FIP, Lacerda e Pinheiro receberam, cada um, 1% do valor da operação. Em nota na sexta-feira, Lacerda negou ter recebido propina.

Nova rodada de pagamentos indevidos ocorreu em 2011, depois da fusão da Florestal com a Eldorado Celulose (ainda pré-operacional e controlada pela J&F). Por essa transação, sustenta Joesley, o ex-presidente da Petros Luis Carlos Afonso levou um apartamento em Nova York avaliado em US$ 1,5 milhão. Carlos Costa, que sucedeu Afonso na fundação, também teria recebido algum pagamento, que o empresário não soube detalhar. Já Carlos Casé, sucessor de Lacerda na Funcef, rejeitou a continuidade do recebimento de propina, de acordo com o empresário.

Essa operação resultou na estrutura societária atual da Eldorado. A J&F detém 63,59% da Eldorado (participação direta), enquanto o FIP Florestal tem 34,45% e o FIP Olímpia, do presidente da companhia, José Carlos Grubisich, 1,96%. No FIP Florestal, Funcef e Petros têm 24,75% cada, e a J&F, o resto.

Ainda de acordo com a publicação do Valor Econômico, outro delator do grupo, o ex-diretor de relações institucionais da J&F Ricardo Saud afirma que Temer, ainda na vice-presidência da República, atuou para facilitar a obtenção de licença para construção do terminal de cargas da Eldorado no Porto de Santos (SP).

 Segundo Saud, a companhia iniciou em 2015 a reforma do terminal e com apenas um mês de execução, as obras foram embargadas pela Codesp, autarquia que opera o porto paulista. A ajuda foi solicitada a Temer porque, segundo o executivo, era ele quem controlava as nomeações na Codesp. Saud conta que o senador cassado Delcídio do Amaral (PT/MS)recebeu um “mensalinho” de R$ 500 mil por dez meses para atender a interesses da Eldorado.

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