
A pecuária de corte de Mato Grosso do Sul vive um momento decisivo. Após anos marcados por preços pressionados e elevado descarte de fêmeas, o Estado começa a atravessar uma fase de transição do ciclo pecuário, saindo gradualmente do período de baixa e avançando em direção à fase de alta. A avaliação consta em análise técnica elaborada pelo Departamento Técnico da Federação da Agricultura e Pecuária de MS (Famasul).
Esse estágio intermediário é caracterizado por sinais iniciais de recuperação dos preços, enquanto a oferta de animais ainda permanece elevada, reflexo direto das decisões produtivas tomadas nos últimos anos. O resultado é um mercado com viés positivo, porém ainda marcado por margens apertadas em parte da cadeia produtiva.
Análise do Ciclo Pecuário em Mato Grosso do Sul
Segundo a Famasul, o atual momento é compatível com uma fase de inflexão do ciclo. Os preços começam a reagir antes que as mudanças estruturais na oferta de animais se materializem de forma plena, o que é típico da dinâmica da pecuária, marcada por ciclos longos e dependentes de decisões biológicas.
“O cenário atual mostra preços em recuperação, mas ainda sem uma redução clara no abate de fêmeas, o que indica que a fase de alta ainda não se consolidou”, avalia Diego Guidolin, consultor em pecuária do Departamento Técnico da entidade.
Cria sente os primeiros efeitos positivos
Entre os diferentes sistemas produtivos, a cria é a que apresenta os sinais mais evidentes de melhora. A valorização do bezerro aumenta a receita do produtor e sinaliza expectativas mais favoráveis no médio prazo, especialmente com a perspectiva de restrição futura na oferta de animais de reposição.
Apesar disso, a recomendação é cautela na retenção de fêmeas. A decisão deve considerar a capacidade financeira da propriedade, além da disponibilidade de pastagem, manejo e estrutura, para evitar riscos em um momento ainda marcado por incertezas.
Recria e engorda enfrentam margens comprimidas
Nos sistemas de recria e terminação, o cenário é mais desafiador no curto prazo. O aumento no preço dos animais de reposição ocorre antes da valorização plena da arroba do boi gordo, o que pressiona os custos e reduz a rentabilidade dessas atividades.
Esse descompasso, segundo a análise técnica, é comum nas fases de transição do ciclo pecuário e exige atenção redobrada à gestão de custos e à estratégia de comercialização.
Histórico ajuda a compreender o atual movimento
Entre 2019 e 2021, o setor viveu um período de preços elevados, o que estimulou a retenção de fêmeas e a expansão do rebanho. A partir de 2022, o cenário se inverteu, com aumento expressivo no abate de matrizes, patamar próximo ou superior a 49% do total abatido, índice historicamente associado às fases de baixa.
Como consequência, o rebanho sul-mato-grossense foi reduzido de mais de 20,5 milhões de cabeças, em 2017, para cerca de 17,2 milhões de cabeças em 2023.
Sinais recentes indicam mudança de tendência
Nos últimos dois anos, os indicadores começaram a apontar uma inflexão. Mesmo com o abate de fêmeas ainda elevado, houve estabilização do rebanho e valorização da arroba do boi gordo, que atingiu R$ 306,93 até novembro de 2025. O preço do bezerro também avançou, alcançando R$ 2.658,03.
Esse movimento indica mudança na percepção dos agentes de mercado e, historicamente, antecede a consolidação da fase de alta do ciclo.
Estratégias de Comercialização e Gestão de Riscos
Em um ambiente de maior volatilidade, a comercialização passa a ser um dos principais instrumentos de gestão do produtor. Ferramentas como contratos a termo, mercado futuro e opções permitem reduzir riscos, garantir previsibilidade e alinhar custos e receitas.
“O produtor que entende o ciclo e ajusta sua estratégia tende a atravessar esse período com mais segurança e competitividade”, reforça Guidolin.
*Com informações de Ana Palma / Famasul