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Grau de Endividamento X Novos Horizontes

Por Da redação
14/05/2022 • 06h00
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Após muitos anos sem uma perspectiva promissora, o setor sucroenergético brasileiro experimentou, a partir da safra 19/20, uma sequência de três bons anos, ao menos em termos de preço. Após um crescimento real da ordem de 14% na safra 18/19, a dívida total do setor se manteve estável em 19/20 e caiu cerca de 22% em 20/21. Os balanços da safra 21/22 estão saindo do forno, mas devem apresentar resultados bastante heterogêneos entre as empresas, em função da quebra de safra de cada unidade produtora e da política de hedge adotada por cada grupo econômico. 

Em relação à quebra de safra, enquanto os dados da Unica mostram uma queda de 14,69% (em ATR), temos observado unidades com apenas 5%, enquanto outras chegam a apresentar perdas de até 30%. Já no que diz respeito ao hedge, muitas empresas travaram, antecipadamente, seus preços de açúcar em cerca de R$ 1.500,00 por tonelada, mas o preço chegou a bater acima de R$ 2.000,00, beneficiando as empresas que não se haviam protegido. 

Nesse caso, diga-se, pura sorte de quem não fez o que deveria ter sido feito. Isso tudo posto, considerando o aumento de custos dos insumos, que já teve impactos nessa última safra, e o aumento da Selic, a partir de meados de 2021, torna bastante desafiador estimarmos o nível de dívida das empresas e do setor como um todo no atual momento, sem termos acesso aos balanços fechados da safra. 

Se já é difícil estabelecermos o presente, pior ainda é traçarmos cenários futuros. Apenas para citar alguns exemplos, cloreto de potássio saiu de 400 dólares por tonelada, no início de 2021, para cerca de 1.200 hoje; ureia, de 350 dólares para próximo de 900; e superfosfato triplo, de 450 para 800 dólares a tonelada. Isso tudo sem contar o preço do óleo diesel, que acumula mais de 55% de aumento desde o início da última safra. Ou seja, o cenário será desafiador, embora a perspectiva seja de preços firmes de açúcar e etanol. 

Por outro lado, como tenho insistido há vários anos, o setor é muito heterogêneo em vários aspectos. Apenas para se ter uma ideia, em um levantamento com 162 unidades produtoras, o CTC encontrou resultados de produtividade (safra 20/21) que vão de 16,19 toneladas de ATR por hectare até 4,01. Do ponto de vista financeiro, alguns grupos possuem dívida líquida menor que 50 reais por tonelada, enquanto outros superam os 250. Um cenário desafiador, seja de clima, seja de preço ou de custo, afetará diferentemente cada uma das usinas. Usando um exemplo do passado, após o período de congelamento de preços da gasolina em meados da última década, várias usinas se tornaram insolventes, algumas sendo inclusive forçadas a pedir recuperação judicial, enquanto outras, além de passarem incólumes, aumentaram sua moagem incorporando canavial delas. É, portanto, mais importante fazer primeiro a lição de casa, independentemente da adversidade do momento.

Essa lição tem dois pilares fundamentais: redução de custos e gestão financeira. Em um setor de commodities, onde não se controla o preço, a redução de custos é a principal forma de se aumentar ou preservar a geração de caixa. Considerando que cerca de 70% dos custos de uma usina estão na área agrícola, é lá que se podem obter os melhores ganhos, seja por aumento de produtividade, seja por diminuição de desperdício. 

Nesse campo, as notícias não podiam ser melhores: é profícua a quantidade de soluções que vem sendo gerada nesse sentido, desde técnicas de manejo, como a meiosi, ao uso de tecnologia, algumas delas de adoção relativamente simples e barata, como uso de sistema para monitoramento de frota, com redução impressionante do número de máquinas usadas na operação, ou o uso de drones para controle biológico de pragas.

Já sob o aspecto financeiro, o ponto mais importante é o controle da liquidez, que se faz tomando dívida em prazos condizentes com o ciclo de investimentos da empresa e mantendo um forte colchão de caixa. Em relação ao ciclo de investimentos, vale lembrar que o principal CAPEX recorrente do setor é a renovação de canavial, que demora, no mínimo, 12 meses para ser colhido e permanece sendo colhido por cinco ou seis anos. Em relação ao caixa, há sempre quem questione o custo de carregar uma posição elevada, recebendo remuneração inferior ao que paga na dívida. 

É verdade, carregar caixa realmente custa caro, mas aumenta o poder de barganha e torna a empresa mais fácil de administrar. Não à toa, empresas de primeiríssima linha não veem qualquer incômodo em carregar um caixa expressivo. Veja alguns exemplos de companhias abertas em 31 de dezembro no ano passado: Brasilagro, caixa de R$ 563 milhões, equivalente a 1,13 vez sua dívida financeira de curto prazo; São Martinho, caixa de R$ 1,5 bilhão, 2,23 vezes; Suzano, caixa de R$ 5,2 bilhões, 2,79 vezes. 

Alguns fatos nos levam a crer que há novamente um ambiente bastante propício para o setor sucroenergético nos próximos anos: uma retomada forte da “onda” ESG no mundo, dando impulso a uma possível nova onda de comercialização de créditos de carbono; a admissão por parte de algumas montadoras de automóveis de que a solução para descarbonização de alguns países, como o Brasil, passa pelo biocombustível e não somente pela eletrificação plug-in; o potencial do biogás e do biometano, agregando valor à produção; a possibilidade de viabilização de tecnologias disruptivas, como o plantio de cana via “semente”. Aquelas empresas que, nos últimos três anos, conseguiram reduzir seu endividamento, ajustar sua liquidez e adequar seu custo de produção vão, com certeza, conseguir surfar nessa nova onda. 

Manoel Pereira de Queiroz 
é Superintendente de Agronegócio do Banco Alfa e membro do Conselho Superior do Agronegócio da FIESP

 

 

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