
Depois de dois anos marcados por choques de oferta e oscilações extremas de preços, o mercado global do cacau inicia 2026 em um cenário de transição. A recente correção das cotações, aliada a ajustes na demanda e à recuperação parcial da produção africana, tem redesenhado as perspectivas para o setor, que ainda opera sob incertezas.
Segundo análise da StoneX, os contratos futuros, que chegaram próximos de US$ 12,5 mil por tonelada no fim de 2025, em Nova York, recuaram para a faixa de US$ 5 mil. Apesar da queda, os preços seguem historicamente elevados, sustentados por estoques globais reduzidos e pelo impacto de duas safras frustradas no Oeste Africano.
Para o analista Lucca Bezzon, da StoneX o mercado ainda exige cautela. “Apesar disso, algumas vulnerabilidades persistem. A umidade do solo segue baixa em regiões-chave, e desafios fitossanitários mantêm vivo o risco de novas perdas produtivas”, afirmou.
África avança, mas riscos permanecem
Na Costa do Marfim e em Gana, principais produtores mundiais, os primeiros dados da safra 2025/26 indicam melhora no ritmo de entregas, impulsionada por condições climáticas mais favoráveis no fim de 2025. O avanço reduziu parte das preocupações de curto prazo.
No entanto, a experiência recente da safra 2024/25, que começou forte e perdeu fôlego ao longo do ciclo, reforça a postura defensiva dos investidores e da indústria.
Brasil amplia participação no mercado
Enquanto o Oeste Africano segue como principal referência global, produtores secundários vêm ganhando espaço. O Equador se consolidou como destaque recente, com aumento de produtividade e exportações acima da média histórica.
Nesse movimento, países como Indonésia, Nigéria e Brasil também passaram a ampliar sua presença, ainda que de forma gradual.
“O crescimento desses produtores não substitui o papel central da África, mas reduz a sensibilidade do mercado a choques localizados”, destacou Bezzon.
No caso brasileiro, o avanço está ligado principalmente a investimentos em manejo, renovação de lavouras e melhoria da qualidade das amêndoas, o que amplia o potencial de inserção no comércio internacional.
Indústria reduz consumo e ajusta receitas
Do lado da demanda, a indústria de chocolates e confeitaria vive um processo de adaptação. Após dois anos de custos elevados, empresas reduziram o tamanho de produtos, reformularam receitas e buscaram alternativas parciais à manteiga de cacau, que chegou a atingir valores próximos de US$ 40 mil por tonelada nos Estados Unidos.
Essas estratégias resultaram em queda no consumo de subprodutos e, consequentemente, na demanda por amêndoas, contribuindo para o recuo recente das cotações.
As divulgações trimestrais de moagem seguem como principal termômetro do setor, embora exijam cautela na interpretação.
“A retração observada na Europa e na Ásia, e de forma mais moderada na América do Norte, reflete tanto compressão de margens quanto limitações na oferta de amêndoas de qualidade”, explicou o analista.
Estoques seguem apertados
Outro ponto de atenção é a revisão recente da Organização Internacional do Cacau. Após dois trimestres sem atualizações, a entidade reduziu as projeções para 2024/25, reforçando a avaliação de que o mercado ainda opera em situação estruturalmente apertada.
A StoneX projeta para 2025/26 um superávit de 287 mil toneladas, impulsionado por uma demanda mais contida e pela recuperação parcial dos grandes produtores. Caso o cenário se confirme, a relação entre estoques e consumo pode se aproximar dos padrões históricos ao longo de 2026.
Mercado financeiro indica nova fase
No mercado de derivativos, os contratos futuros também apontam mudança de ciclo. A forte backwardation — quando os preços à vista superam os futuros — observada em 2024 e 2025 deu lugar a uma curva mais equilibrada, indicando expectativa de normalização gradual até 2027.
De acordo com Bezzon, o aumento das posições vendidas por investidores especulativos sinaliza maior cautela no curto prazo, embora ainda haja espaço para episódios de volatilidade.
Além disso, a inclusão do cacau no Bloomberg Commodity Index (índice internacional que reúne as principais commodities do mundo), em janeiro, tende a atrair novos fluxos de investimento e influenciar o comportamento dos preços.
*Com informações da StoneX