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Três Lagoas, 16 de junho

Mato Grosso do Sul possui um geriatra a cada 200 mil moradores

Escassez de médicos especialistas coloca estado como o 11º no ranking nacional com a menor proporção de geriatras por habitante

Por karina Anunciato e Fernando de Carvalho
19/05/2024 • 06h00
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Com o aumento da expectativa de vida do brasileiro a cada ano, cresce também a demanda por produtos, serviços e ações cada vez mais voltados ao público mais idoso. Conforme o último levantamento realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a expectativa de vida, na média, é de 72 anos para os homens e de 79 anos para as mulheres.

No entanto, a quantidade de médicos geriatras não acompanha essa realidade. De acordo com a Demografia Médica no Brasil, realizada pelo Conselho Federal de Medicina, Mato Grosso do Sul tinha, em 2020, apenas 13 geriatras.  Atualmente esse número é ainda menor, o que preocupa quem atua na área, como o especialista Marcos Blini Pereira, que foi entrevistado no programa CBN Campo Grande. 

Doutor Marcos Blini, apesar do prolongamento  da velhice,  por que há poucos especialistas na saúde do idoso?
Marcos Blin - Hoje há 11 geriatras cadastrados no Conselho Regional de Medicina, sendo que apenas oito estão na ativa. É realmente um número muito pequeno perante o tamanho do estado. É até estranho esse número porque o envelhecimento está cada vez mais saudável e será preciso mais profissionais que tenham uma capacidade técnica, um entendimento desse processo do envelhecimento. Por outro lado, a geriatria é uma área que tem um cuidado muito holístico, um cuidado muito global do paciente. Isso demanda uma responsabilidade muito grande. E as novas gerações de médicos procuram cada vez mais especialidades focadas e que não apresentem tanta abrangência.

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Essa baixa procura pela geriatria, por parte dos médicos, pode ser algo que antecede a formação?
Marcos Blin Tem uma questão cultural do preconceito com o envelhecimento. Tem pessoas que falam, “eu vou me esforçar tanto, fazer a graduação, residência, especialização para atender idoso?!”,  e isso é um grande preconceito. Existe também uma situação mercadológica. O grosso do sistema de saúde, tanto o SUS quanto o sistema suplementar de planos de saúde,  valoriza muito pouco o geriatra. Só que, em contrapartida, a população valoriza muito, porque percebe o quanto esse cuidado é diferenciado. Por isso, a maior parte dos bons geriatras faz só consulta particular.

E o aumento da expectativa de vida está diretamente ligado ao cuidado com a saúde, né?
Marcos Blin A gente fala de expectativa de vida ao nascer, que é de 75 anos. E quando a gente vai ver a expectativa de vida de idosos, principalmente mulheres que vivem mais, já está por volta dos 85 anos. Então, quanto mais a pessoa vive, demonstra que ela tem uma saúde boa e a expectativa de vida vai subindo. Então, por mais que pareça que as pessoas vivem pouco no Brasil, não é bem assim, porque a gente ainda tem muita mortalidade cardiovascular, muita mortalidade por acidente. Então, quem já é idoso, tem grandes chances de beirar uns 90 anos, dependendo da saúde geral. 

E quais são as doenças que mais atingem os idosos?
Marcos Blin Tem as doenças clínicas gerais, como a hipertensão, diabetes, o fato de não fumar, controle de obesidade, medidas de estilo de vida. Mas tem algumas questões que são muito inerentes ao envelhecimento, como as síndromes demenciais. E, quanto mais ativa a pessoa for, menor a chance disso acontecer. Mas o envelhecimento é o maior fator de risco para a demência. E há outro aspecto que grande parte dos profissionais em saúde tem um déficit técnico nisso, que é a questão da saúde muscular. Eu já vi vários profissionais dizendo ao paciente que ele está bem, que os exames não apresentaram nenhuma alteração, só que o idoso está caindo, com tontura, não tem energia, só o “pó da gaita” do ponto de vista da musculatura. Ninguém envelhece bem se não conseguir andar bem, se não conseguir ir ao banheiro, até para manter as atividades básicas de vida e as questões de dignidade. Esta aí um exemplo da necessidade de formação de geriatras.

E como manter a qualidade de vida na velhice?
Marcos Blin Quem tem uma vida muito ativa tende a envelhecer muito melhor, tanto do ponto de vista físico quanto do ponto de vista mental. Nós temos vários idosos que são altamente ativos na sociedade, como políticos, empresários, pessoas envolvidas com questões sociais. A própria aposentadoria, do ponto de vista financeiro-econômico, até de liberdade para esse idoso, é muito interessante. Mas, por outro lado, quando o idoso aposenta, ele tem que recriar o propósito de vida para ele. É muito comum a gente ver pessoas que se aposentam e depois disso elas envelhecem muito mal. E isso realmente ocorre por uma perda de propósito, uma perda de rotina, uma perda até da identidade como ser humano.
Para a gente envelhecer bem, aquele pessoal que realmente está muito ativo, precisa fazer academia, tomar vacinas, tomar os medicamentos de forma adequada.

O estatuto do Idoso considera pessoas acima de 60 anos como idosos. Mas muitas pessoas chegam muito bem de saúde nessa idade. Como é que o senhor enxerga isso?
Marcos Blin Culturalmente, a palavra idoso relaciona a uma pessoa estar envelhecendo mal, virou uma palavra pejorativa. Em países desenvolvidos é considerado idoso a partir dos 65 anos. E na Itália, é considerado idoso a partir dos 70 anos. Então percebemos que, quem se cuida hoje em dia, e isso é uma coisa que a tendência é aumentar no decorrer dos próximos anos, começa a sentir o peso da idade por volta dos 70. É uma fase da vida muito importante para acender um alerta da questão da saúde muscular. 

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