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Três Lagoas se torna refúgio para venezuelanos que fogem da crise

Crescimento no número de venezuelanos e haitianos reflete busca por regularização, trabalho e estabilidade no município

Mulher deixou a Venezuela há oito anos e encontrou em Três Lagoas condições para recomeçar a vida com a família. Foto: Reprodução/TVC.
Mulher deixou a Venezuela há oito anos e encontrou em Três Lagoas condições para recomeçar a vida com a família. Foto: Reprodução/TVC.

A crise política, econômica e social na Venezuela, agravada recentemente após a prisão do presidente Nicolás Maduro em uma operação dos Estados Unidos, segue refletindo fora do país. Em Três Lagoas, o impacto aparece no aumento do número de imigrantes venezuelanos que escolheram o município como destino em busca de estabilidade, trabalho e melhores condições de vida.

Dados da Polícia Federal indicam que, somente em 2025, foram registradas 440 autorizações de residência para imigrantes em Três Lagoas. A maioria é formada por venezuelanos, com 163 registros, seguidos por haitianos, com 87. O crescimento é expressivo quando comparado aos dados do IBGE, que apontam que em 2017 apenas 54 venezuelanos viviam oficialmente no município.

Entre as histórias que ajudam a compreender esse movimento está a da venezuelana Elizabeth Jasmin Paez, de 40 anos. Ela deixou a Venezuela há oito anos em razão das dificuldades financeiras e da impossibilidade de manter condições básicas de vida, mesmo exercendo mais de uma atividade profissional.

Na Venezuela, Elizabeth atuava como assistente administrativa, gerente e assistente de vendas. Ainda assim, a renda não era suficiente para cobrir despesas essenciais, incluindo cuidados de saúde da filha, que necessita de acompanhamento terapêutico constante. Diante do agravamento da crise, a decisão foi vender bens e deixar o país.

Antes de chegar ao Brasil, a venezuelana tentou recomeçar no Equador, sem sucesso, e depois no Peru, onde permaneceu por dois anos. Foi nesse período que conheceu o atual marido. A decisão de vir para o Brasil ocorreu após avaliar que o país oferecia melhores condições de trabalho e acesso a serviços de saúde, mesmo sem domínio do idioma português.

A chegada ao Brasil coincidiu com o período da pandemia da Covid-19. O primeiro destino foi a cidade de São Paulo, mas o ritmo acelerado e as dificuldades iniciais levaram à busca por um local mais tranquilo. A escolha por Três Lagoas aconteceu de forma espontânea, ainda na rodoviária do município.

Sem conhecer ninguém na cidade, o casal contou com a ajuda de moradores que ofereceram abrigo temporário até a conquista do primeiro emprego. Com o passar do tempo, vieram o trabalho fixo, a moradia e a adaptação à nova realidade. Atualmente, Elizabeth atua no comércio local, enquanto o marido trabalha como torneiro mecânico em uma empresa da cidade.

A família também cresceu, aqui ela teve mais dois filhos. Ao todo, 15 venezuelanos, entre parentes do casal, vivem hoje em Três Lagoas, todos com situação migratória regularizada. Parte da renda obtida no Brasil é destinada ao auxílio de familiares que permanecem na Venezuela.

Mesmo distante, a situação do país de origem segue presente no cotidiano. A prisão de Nicolás Maduro gerou sentimentos de alívio e preocupação entre venezuelanos que vivem fora, principalmente em relação à segurança de parentes que continuam no território venezuelano. O momento ainda é de incerteza quanto aos próximos desdobramentos políticos.

Apesar da saudade, não há planos de retorno definitivo à Venezuela. A avaliação é de que o país mudou profundamente ao longo dos últimos anos, com grande parte da população espalhada por diferentes cidades e países. Em Três Lagoas, a rotina hoje é marcada por estabilidade e perspectivas de futuro.

O crescimento da população imigrante reforça o papel do município como destino de acolhimento e oportunidade, mostrando que conflitos internacionais também produzem efeitos diretos na realidade local, traduzidos em histórias de recomeço, integração e superação.