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Saúde pública

Depois de cirurgia na Santa Casa, menino espera há três meses por retirada de pino no braço

Criança de oito anos operada em outubro não consegue consulta de retorno

Documentos indicam revisão em até três semanas Foto: Arquivo pessoal
Documentos indicam revisão em até três semanas Foto: Arquivo pessoal

Três meses após passar por cirurgia ortopédica, o menino Gabriel de oito anos ainda aguarda a retirada de um pino implantado durante um procedimento. Segundo a família, o problema é ainda mais grave já que a criança não conseguiu acesso às consultas de retorno previstas nos próprios documentos médicos da Santa Casa de Campo Grande, onde foi operada pelo SUS.

A cirurgia foi realizada em 31 de outubro de 2025, data que consta em receituário emitido pela unidade hospitalar. Desde então, de acordo com o pai do menino, Omar Chácon Vicen, as tentativas de marcar acompanhamento com a ortopedia esbarram em falta de agendamento e ausência de encaminhamento formal.

“Esse foi o dia em que ele foi submetido à cirurgia”, afirmou. “Me disseram para ir naquele dia, mas não consegui marcar uma consulta. Voltei no dia 26 de dezembro e ainda não consegui marcar”.

Segundo ele, a busca por atendimento incluiu diferentes setores do hospital. “Fui no dia 19 para falar com o serviço social, mas eles não puderam me ajudar porque eu não tinha um pedido médico. Hoje, dia 28, fui novamente, mas eles não me deram uma resposta”, relatou.

Na prática, a família descreve um cenário de idas repetidas à unidade de saúde sem conseguir formalizar o retorno, mesmo diante da necessidade de avaliação para retirada do material cirúrgico.

“Ele teve que esperar para ver quando removeriam o pino. Já faz três meses que o pino está lá e eu não consegui removê-lo”, disse o pai. A família que é venezuelana vive há um ano e um mês em Campo Grande. Além do menino de 8 anos, a família tem uma filha de cinco meses, nascida no Brasil. O local da cirurgia está gradativamente ficando escuro e com saída de secreção. O pai está preocupado com possíveis sequelas e com a volta as aulas da criança nos próximos dias.

Orientações que não saíram do papel

Os receituários médicos entregues à família após o procedimento indicam que o acompanhamento deveria ocorrer em curto prazo.

No documento emitido em 31 de outubro, está registrado, em letras destacadas:

“Não falte ao retorno e não esqueça de trazer esta receita médica”.

O mesmo texto determina orientando a família a “marcar antecipadamente no ambulatório de ortopedia (Unidade do Trauma) consulta de retorno com o Dr. Fabiano Sanches em três semanas”.

Também há a previsão de reavaliação caso o paciente encontrasse dificuldades na rede:

“Caso seja encaminhado a outro serviço e não consiga o atendimento, retorne ao pronto socorro para novas orientações”.

Já um segundo receituário, datado de 10 de dezembro de 2025, reforça o caráter contínuo do acompanhamento:

“Agendar retorno com o Dr. Fabiano Sanches em duas semanas no ambulatório de ortopedia da Santa Casa para acompanhamento”.

O documento ainda orienta: “Realizar curativo (…) duas vezes na semana e manter tala axilopalmar”.

Apesar das recomendações formais de retorno em poucas semanas, a família afirma que não conseguiu converter essas orientações em atendimento efetivo.

Problemas no pós-cirúrgico

A retirada de pinos e outros dispositivos de fixação óssea depende de avaliação clínica e, em geral, de exames de imagem, feitos justamente nas consultas de revisão. Sem esse acompanhamento, a definição sobre o momento adequado para remover o material fica suspensa.

O caso expõe um problema no pós-operatório pelo SUS, etapa considerada fundamental para evitar complicações e garantir a recuperação completa do paciente.

Aliado a isso, durante os últimos meses, médicos, enfermeiros e administrativos do maior hospital do estado, enfrentam dificuldades para receber os salários.  Em dezembro, os atendimentos sofreram impacto com a greve dos profissionais que não haviam recebido o 13° salário. 

Outro lado

A Santa Casa de Campo Grande foi procurada e informou em nota que o atendimento no ambulatório está suspenso em consequência de questões financeiras.

“A Santa Casa de Campo Grande informa que o atendimento ambulatorial encontra-se temporariamente suspenso em razão de questões administrativas relacionadas ao repasse de pagamentos às equipes médicas. Estamos em tratativas para a regularização imediata dos pagamentos, condição necessária para o restabelecimento dos atendimentos ambulatoriais e dos acompanhamentos pós-cirúrgicos. Assim que os serviços forem retomados, todos os pacientes que aguardam retorno terão suas consultas reagendadas com prioridade, incluindo o caso citado pela família do paciente”.

Questionamos se há um prazo para a retomada dos atendimentos eletivos, mas até o fechamento da reportagem não tivemos resposta.