
A reinserção social de pessoas que deixam o sistema prisional tem avançado em Campo Grande com a atuação do Escritório Social, unidade da Agência Estadual de Administração do Sistema Penitenciário (Agepen) voltada ao atendimento no pós-pena.
Apenas entre 2024 e 2025, o número de pessoas atendidas quase dobrou, passando de 1.153 para 2.132, resultado atribuído à ampliação das políticas de acolhimento, acesso a direitos e apoio à inserção no mercado de trabalho.
O serviço funciona como porta de entrada para quem sai do sistema prisional e enfrenta dificuldades para retomar a vida em liberdade, oferecendo orientação jurídica, encaminhamentos para saúde, educação e assistência social, além de capacitação profissional. A meta para este ano, segundo a Agepen, é garantir uma vaga de trabalho para todos os egressos e familiares atendidos.
Os impactos do atendimento aparecem nas histórias de quem passou pelo Escritório Social. Após cumprir dez anos de pena, Joanice da Guia de Jesus, 54 anos, encontrou no local o suporte necessário para reconstruir a própria trajetória. Hoje, ela atua como microempresária no ramo alimentício.
“Ser taxada como ex-presidiária fecha muitas oportunidades”, relata.
Ao buscar ajuda no Escritório Social, Joanice foi contratada para trabalhar na própria unidade, concluiu o curso de Informática Básica e, em 2025, abriu uma empresa voltada ao aluguel de itens de buffet e à produção de bolos.
“O Escritório Social virou meu ponto de apoio. É ali que a gente percebe que não está sozinho […]Encontrei a chance de ser vista como pessoa novamente.”, afirma.
Outro exemplo é o de Gustavo Henrique Fonseca Miranda, 21 anos, que cumpre pena em regime aberto com uso de tornozeleira eletrônica. Segundo ele, o preconceito foi um dos principais obstáculos para conseguir emprego.
“Quando viam a tornozeleira, desistiam. Eu quase voltei para o crime”, lembra.
Encaminhado ao Escritório Social pelo Patronato Penitenciário, Gustavo recebeu capacitação e acompanhamento e, poucos dias depois, conseguiu uma vaga em um hospital de Campo Grande.
“Antes eu era visto como bandido. Hoje sou trabalhador. Isso muda tudo”, diz.
Atuação e Parcerias do Escritório Social
Com uma equipe multiprofissional formada por assistentes sociais, psicólogos e técnicos, o Escritório Social atua de forma articulada com a rede pública e entidades parceiras. Em 2025, 307 pessoas tiveram acesso à documentação civil básica, considerada essencial para a obtenção de emprego e acesso a políticas públicas.
A diretora do Escritório Social, Tânia Harden, afirma que o foco do trabalho é romper com a exclusão enfrentada após o cumprimento da pena.
“Nosso objetivo é apoiar o egresso e sua família para que superem obstáculos e não retornem à invisibilidade, garantindo acesso aos direitos e condições para um novo projeto de vida”, explica.
Além da documentação, o serviço promove cursos de qualificação, como Informática Básica, concluído por 99 pessoas neste ano, oficinas de elaboração de currículo, orientação profissional e apoio jurídico e social contínuo. Também são realizadas ações emergenciais, como doações de roupas, cestas básicas, vale-transporte, passagens intermunicipais e interestaduais, além de itens de higiene e apoio à dignidade menstrual.
Para a diretora de Assistência Penitenciária da Agepen, Maria de Lourdes Delgado Alves, o Escritório Social é uma peça estratégica na política de reinserção.
“O atendimento é individualizado e voltado às vulnerabilidades e riscos sociais, fortalecendo vínculos de pertencimento e possibilitando que o egresso construa novas estratégias de vida”, afirma.
O trabalho é desenvolvido em parceria com órgãos públicos e organizações da sociedade civil, como o Ministério do Trabalho e Emprego, Fundação do Trabalho, Fundação Social do Trabalho de Campo Grande, Conselho da Comunidade, Narcóticos Anônimos e entidades voltadas a políticas de diversidade e direitos humanos.
O Escritório Social está localizado em Campo Grande, onde se concentra a maior parte da população sob custódia da Agepen. No interior do estado, o atendimento às pessoas egressas é realizado pelos Patronatos Penitenciários, que também acompanham o processo de reintegração social.
*Com informações do Governo do Estado de Mato Grosso do Sul