O assassinato brutal de uma menina de seis anos em Mato Grosso do Sul, na quarta-feira (27), reacendeu o debate sobre a responsabilidade da sociedade e do Estado diante da violência contra crianças.
Em entrevista à Massa Campo Grande, a psicanalista e coordenadora do Projeto Nova Transforma, Viviane Vaz, destacou os impactos permanentes desse tipo de crime e a necessidade de mais rigor na prevenção. Segundo Viviane, os efeitos para a família são “eternos”.
“Perder uma criança é muito trágico, brutal e inaceitável. É justo que a sociedade discuta onde estamos errando. Infelizmente, o agressor já dava sinais claros de perversão sexual. Ele deveria ter sido encarcerado, e não estar solto com a facilidade que teve”, afirmou.
A especialista – que atua no projeto com apoio a crianças, adolescentes e mulheres vítimas de violência e exploração sexual – também chamou a atenção para a omissão em casos de abuso.
“Muitas pessoas não denunciam porque acham que não vai dar em nada ou porque não querem expor a família. Mas essa pessoa vai abusar de outras crianças. Não podemos fechar os olhos. A sociedade precisa denunciar e cobrar ações da polícia”, disse.
Desconfiança e cuidado redobrado
Viviane reforçou que pais e responsáveis não devem confiar cegamente, especialmente quando o assunto envolve crianças. “Abusadores geralmente convivem com crianças, são pessoas simpáticas, manipuladoras, que sabem conquistar confiança. É preciso desconfiar, sim, até de quem parece muito querido e atencioso”, alertou.
Além do físico, a psicanalista lembrou que a internet também é um espaço de risco. “A imagem que parece bonitinha ou fofa pode esconder um abusador. Precisamos educar as crianças e ficar atentos a qualquer sinal”, completou.
Acolhimento, não julgamento
A crueldade do crime e a facilidade com a qual o estuprador teve acesso a criança tem gerado grande comoção entre as pessoas. Questionada sobre como a sociedade deve se comportar diante da família da vítima, Viviane defendeu o acolhimento sem críticas.
“Não cabe julgamento. Poderia ter acontecido com qualquer um de nós. A dor dessa família precisa ser respeitada e acolhida”, afirmou.
De acordo com informações preliminares, a família possuía histórico de negligências com a criança. Para ela, quando há suspeitas de abandono, é preciso olhar além da família.
“Muitas vezes há dificuldades sociais, pais que precisam trabalhar e não têm com quem deixar os filhos. A responsabilidade de cuidar da criança não é só da família, mas também da sociedade e do Estado. Cabe a todos nós zelar pela proteção das crianças”, frisou.