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Avanço do Corredor Bioceânico altera dinâmica das rodovias federais em MS

aumento >no transporte de cargas, circulação internacional e expansão industrial elevam risco no trânsito e exigem reforço na fiscalização

Superintendente  da PRF em MS, João Bueno, nos estúdios da Massa FM CG
Superintendente da PRF em MS, João Bueno, nos estúdios da Massa FM CG

Oaumento do fluxo de veículos nas rodovias federais de Mato Grosso do Sul, impulsionado pelo avanço do Corredor Bioceânico e pela instalação de novas indústrias, tem alterado a dinâmica do trânsito e ampliado os desafios à segurança viária.
O superintendente da Polícia Rodoviária Federal (PRF) em Mato Grosso do Sul, o inspetor João Paulo Pinheiro Bueno analisa os impactos desse crescimento e o papel da PRF nas rodovias.

O que diferencia a PRF das outras instituições policiais do país?
JOÃO PAULO BUENO 
A Polícia Rodoviária Federal é a polícia ostensiva da União. Não existe outra polícia, em nível de governo federal, que faça o nosso trabalho. A atuação da PRF se dá nas rodovias federais, não só aqui em Mato Grosso do Sul, mas em todo o país. Somos responsáveis pela fiscalização dessas rodovias e atuamos de maneira muito forte tanto na segurança viária quanto no combate ao crime. É uma polícia presente em todo o território nacional.

Mato Grosso do Sul vive um novo momento com a chegada de indústrias, o avanço do Corredor Bioceânico e o aumento do fluxo de veículos. Esse impacto já é perceptível nas rodovias federais?
JOÃO PAULO BUENO  Sim, sem dúvida. Se a gente observar, é fácil notar que, de uns dez anos para cá, o fluxo de veículos mudou completamente. Claro que existe a expectativa com o Corredor Bioceânico, mas esse aumento não está ligado só a ele. Está ligado ao desenvolvimento do estado como um todo. Hoje, nossas rodovias têm um fluxo muito maior, tanto de veículos de carga quanto de passeio, e isso tende a crescer ainda mais com a consolidação do corredor.

E, já é possível perceber aumento no fluxo de veículos estrangeiros circulando pelo estado?
JOÃO PAULO BUENO 
Sim. Mato Grosso do Sul sempre teve um fluxo significativo de veículos estrangeiros, principalmente por ser um estado de fronteira. Isso ocorre, por exemplo, na divisa com a Bolívia, e também na fronteira com o Paraguai. Com a chegada do Corredor Bioceânico, além desses países, veículos do Chile e da Argentina também devem passar a circular com mais frequência pelo estado. Esse aumento é algo que a gente já espera.

Como a PRF tem se preparado para lidar com esse aumento no fluxo, especialmente de veículos estrangeiros?
JOÃO PAULO BUENO 
A PRF investe muito na integração com os países vizinhos. Temos uma universidade corporativa, em Florianópolis (SC), onde recebemos forças de segurança de outros países para fortalecer essa cooperação internacional. Além disso, criamos uma cartilha do Mercosul, que traz a legislação de trânsito brasileira traduzida para o espanhol e para as línguas dos países vizinhos. O visitante que vem ao Brasil pode acessar esse material pelo site ou aplicativo e saber exatamente quais são as regras e exigências aqui, que muitas vezes são diferentes dos países vizinhos.

Na região de fronteira, quais tipos de crimes têm chamado mais atenção da PRF nos últimos anos?
JOÃO PAULO BUENO 
A principal característica de Mato Grosso do Sul, historicamente, é o tráfico de drogas. Isso sempre existiu no estado e vem aumentando ao longo dos anos. O que a gente percebe é uma mudança no perfil. Antes, a maconha era o principal foco das apreensões. Hoje, o tráfico de cocaína cresceu muito. Para se ter uma ideia, há cerca de cinco anos, as apreensões giravam em torno de duas toneladas. Em 2025, chegamos a 14 toneladas de cocaína apreendidas. Isso mostra que as organizações criminosas estão usando o estado como rota. É uma droga muito mais lesiva e com um valor financeiro muito alto agregado.

Em relação à infraestrutura das rodovias, quais são os principais riscos associados ao aumento do tráfego pesado?
JOÃO PAULO BUENO 
 O principal fator de acidentes hoje é a desatenção e as práticas perigosas no trânsito, como ultrapassagens em locais proibidos e excesso de velocidade. Esses são os fatores que mais causam sinistros. Claro que a estrutura das rodovias também influencia, mas isso não é responsabilidade da PRF. Muitas rodovias ainda têm pista simples, trechos sem acostamento, especialmente no sul do estado, o que pode agravar acidentes e aumentar a gravidade das ocorrências.

A chegada das indústrias de celulose no leste do estado tem aumentado muito o tráfego de caminhões pesados. Como isso pressiona a malha rodoviária?
JOÃO PAULO BUENO
 Isso acontece não só no leste, mas também na fronteira oeste. Um exemplo é a BR-262, que tem um trânsito intenso de veículos pesados, inclusive de minério vindo de Corumbá. Essa rodovia corta o estado desde Corumbá até Três Lagoas e concentra muito tráfego pesado. A nossa preocupação é quando veículos de passeio, que não estão acostumados a dividir a rodovia com caminhões de grande porte, se encontram com esse fluxo, principalmente dentro dos perímetros urbanos. Os locais com maior número de acidentes são os perímetros urbanos de Campo Grande e Dourados, onde esse encontro de veículos pode gerar sinistros graves, inclusive com óbitos.

Existe diálogo da PRF com as concessionárias e com o poder público para apontar trechos que precisam de atenção?
JOÃO PAULO BUENO 
Sim. A PRF tem buscado diálogo constante, principalmente com o governo do Estado. Temos uma boa relação com o governador Eduardo Riedel (PP) e com o vice-governador Barbosinha (PSD), justamente por causa da chegada dessas indústrias. Também dialogamos com empresas já instaladas, como na região de Ribas do Rio Pardo, e com empresas de biocombustível. Esse diálogo serve para identificar pontos críticos e buscar soluções conjuntas. A PRF precisa fazer esse papel de garantir segurança para que o desenvolvimento do estado aconteça de forma segura.

Muitos caminhões furtados ou roubados em outros estados acabam vindo para a região de fronteira. Como a PRF atua para combater esse tipo de crime?
JOÃO PAULO BUENO
 Nosso trabalho é muito focado em inteligência. Esse tipo de crime acontece no estado, mas com menos frequência do que nos grandes centros. Normalmente, o furto ou roubo ocorre em grandes cidades, e o veículo é trazido para a fronteira. Aqui, atuamos de forma integrada com a Polícia Civil, Polícia Militar e Polícia Federal para identificar rapidamente essas ocorrências e impedir que o veículo chegue à fronteira. O motorista precisa ter atenção, sim, mas esse tipo de crime é menos frequente aqui do que em outros estados.

Projetos de monitoramento e tecnologia têm ajudado nesse trabalho?
JOÃO PAULO BUENO
 Sem dúvida. A PRF tem mais de 4 mil quilômetros de rodovias no estado e um efetivo de cerca de 615 policiais. É pouco policial por quilômetro. Por isso, o investimento em tecnologia é fundamental. Usamos drones, sistemas de monitoramento e viaturas equipadas com internet via satélite, o que é essencial em um estado com áreas sem sinal de celular. A tecnologia ajuda a mitigar a falta de efetivo e aumenta a eficiência do trabalho.

Para quem utiliza diariamente as rodovias federais de Mato Grosso do Sul, qual é a principal orientação da PRF?
JOÃO PAULO BUENO
 Conscientização e planejamento. Planejar a viagem, respeitar a sinalização, não ultrapassar em locais proibidos, não usar o celular, usar o cinto de segurança e verificar o veículo antes de viajar. São cuidados simples que fazem diferença.