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Entrevista

Integração entre soja, leite e logística sustenta novo ciclo do agro no Estado

Secretário destaca avanços em infraestrutura para impulsionar o agronegócio sul-mato-grossense

Jaime Verruck > que é titular da Semadesc, esteve nos estúdios da Massa FM da Capital
Jaime Verruck > que é titular da Semadesc, esteve nos estúdios da Massa FM da Capital

Mato Grosso do Sul consolida sua força no comércio exterior ao mesmo tempo em que enfrenta desafios estruturais em cadeias produtivas estratégicas. De janeiro a outubro, o Estado somou US$ 9,08 bilhões em exportações, aumento de 4,24% em relação ao mesmo período do ano passado, com superávit de US$ 6,91 bilhões, segundo dados da Secretaria de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação (Semadesc). A alta foi impulsionada pela celulose, que representa quase 30% da pauta, pela carne bovina e pela soja, enquanto a mineração e a indústria de transformação ampliaram sua participação na economia estadual.

A indústria extrativa apresentou crescimento expressivo de 57,5% no valor exportado e de 141% em volume, consolidando o avanço da mineração e da operação logística no eixo Corumbá–Porto Murtinho. Já a indústria de transformação teve alta de 13,3% no valor das exportações e de 23,4% no volume embarcado, sustentada pelo desempenho da celulose e da proteína animal.

Apesar dos bons resultados, a agropecuária enfrenta retração e expõe desigualdades entre cadeias produtivas. Enquanto a carne bovina acumula alta de 46,6% no volume exportado e a soja mantém estabilidade, o setor lácteo vive uma das piores crises das últimas décadas, operando com apenas um terço da capacidade instalada. A produção caiu de 500 milhões de litros em 2010 para cerca de 270 milhões em 2024, e o número de indústrias reduziu drasticamente. O cenário preocupa produtores e indústrias, que cobram revisão tributária e prioridade para produtos locais nas compras públicas, como forma de evitar o fechamento de laticínios e garantir a permanência das famílias no campo.

Entre medidas emergenciais e políticas de longo prazo, o governo aposta em integração logística, estímulo à industrialização e programas setoriais para equilibrar a balança produtiva. À frente dessas ações, o secretário Jaime Verruck analisa o desempenho econômico do Estado, comenta os avanços na infraestrutura rodoviária e hidroviária e explica os planos de recuperação para cadeias fragilizadas, como a do leite.

Quais são hoje os principais fatores que têm impactado a produção no Estado, especialmente ligados à cadeia logística? Como o Mato Grosso do Sul tem se desenvolvido nesse aspecto, considerando o escoamento e a armazenagem de grãos?
Jaime Verruck A nossa grande preocupação tem sido olhar a logística do Estado no longo prazo. Para isso, o governo tem investido e focado muito os seus investimentos. Inclusive, o próprio governador foi à Assembleia Legislativa pedir autorização para um empréstimo de mais de R$ 900 milhões. O foco desses empréstimos, tanto do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) quanto do novo financiamento a ser aprovado, é o setor rodoviário. Mato Grosso do Sul quer integrar toda essa estrutura rodoviária para melhorar o escoamento da produção. Tivemos ampliação da área de soja em novas regiões, antes voltadas à pecuária, e isso tem impacto direto na logística.

E quanto aos projetos de médio e longo prazo, o que está previsto em relação a hidrovias e ferrovias?
Jaime Verruck
 Na questão hidroviária, o governo federal deve lançar no ano que vem a primeira concessão do país, envolvendo Corumbá e Porto Murtinho, na hidrovia do Paraguai. Isso será muito importante. Também há um movimento forte de reativação da ferrovia, que é crucial. Temos a Ferronorte, que já é bastante competitiva no transporte de grãos, celulose e combustível, passando por Chapadão do Sul. Agora, estamos focados na possibilidade de relicitação da ferrovia de Corumbá até o munícipio de Mairinque, no estado de São Paulo, que cumpriria papel importante no escoamento.

O senhor citou o escoamento da soja. Como está o desempenho das exportações e o impacto da oscilação dos preços internacionais?
Jaime Verruck
 O principal porto exportador é Paranaguá. Este ano já exportamos mais de 5 milhões de toneladas de soja em grão, o que é positivo, embora um pouco abaixo do ano passado por causa das oscilações de preço. Essas variações são muito influenciadas por fatores externos — China, Estados Unidos — e isso mexe nas cotações. O foco do Estado é reduzir custos logísticos, pois isso se reflete diretamente na renda do produtor rural.

A Semadesc divulgou que as exportações de celulose, soja e carne bovina tiveram destaque em 2025. Mas há cadeias produtivas que ainda enfrentam fragilidades, como a do leite. O que tem sido feito para fortalecer esse setor?
Jaime Verruck
 O governo lançou há alguns meses o programa ProLeite, criado para incentivar a produção de leite. Isso parte de um diagnóstico muito claro: temos baixa produção e produtividade, além de uma distribuição muito dispersa da atividade pelo Estado, o que dificulta a coleta. O problema não está na indústria, que opera com capacidade ociosa, como também ocorre na bovinocultura. Nós queremos aumentar a produção de leite no período de inverno. Há uma disparidade muito grande entre a produção de verão e de inverno, com queda significativa nessa estação. O diagnóstico mostra que isso ocorre por fatores ligados à alimentação, ao manejo e à qualidade genética dos animais. Por isso, estamos focando em todas essas áreas. O primeiro ponto é a qualidade genética: estamos entregando a produtores pré-selecionados novilhas, novilhas prenhas e touros, além de adquirir sêmen sexado de fêmea para ampliar a capacidade genética. O foco também é a assistência técnica. Em parceria com a Agência de Desenvolvimento Agrário e Extensão Rural (Agraer) e o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar), o governo vai orientar o produtor para que ele possa efetivamente melhorar. E para isso, o governo através da indústria vai pagar um diferencial de preço, como ocorre no programa Precoce. Aquilo que o produtor conseguir aumentar de produção no inverno receberá um adicional via ICMS. É um programa amplo, voltado à assistência técnica, melhoria de manejo, produtividade, genética e aumento da produção. É um projeto de médio prazo, mas essencial, pois afeta diretamente o pequeno produtor rural do Estado.

Além disso, existem outros desafios?
Jaime Verruck
 Sim. Há também o desafio da concorrência externa, especialmente com o leite em pó importado. Estamos atuando junto à Famasul para evitar a importação de leite em pó da Argentina, Uruguai e até da China, que afeta os preços nacionais. Essa é uma estratégia nacional, mas nosso foco é local: fortalecer a bacia leiteira sul-mato-grossense.

E sobre o setor da carne bovina, há estudos para permitir a entrada de gado de outros estados para suprir a indústria frigorífica?
Jaime Verruck
 Sim. Atendendo a pedidos dos confinadores, queremos permitir a entrada de gado magro — principalmente bezerros — de estados como Mato Grosso, Pará e Rondônia, para confinamento em Mato Grosso do Sul. Hoje essa entrada paga 12% de imposto, o que inviabiliza o processo. Estamos propondo um modelo semelhante ao de São Paulo, com benefício tributário para quem traz o animal, confina e o abate dentro do Estado. Essa medida deve ser regulamentada por decreto nas próximas semanas. O objetivo é aumentar o volume de animais confinados, sem prejudicar o preço pago ao produtor local.