Veículos de Comunicação

Artigo

A terceirização do pensamento na era da inteligência artificial

Leia o Artigo do Jornal do Povo, da edição deste, sábado (3)

Leia o Artigo do Jornal do Povo, da edição deste, sábado (3). Foto: ilustração
Leia o Artigo do Jornal do Povo, da edição deste, sábado (3). Foto: ilustração

A expansão da inteligência artificial no cotidiano profissional e cultural tem produzido um debate deslocado. Pergunta-se, com insistência quase ansiosa, se a tecnologia substituirá pessoas, profissões ou capacidades humanas. A questão relevante, porém, está em outro ponto: o que acontece quando o pensamento deixa de ser exercido e passa a ser delegado.

A IA não inaugura a tentação da terceirização intelectual. Sistemas, métodos e fórmulas sempre ofereceram atalhos para evitar o esforço reflexivo. A diferença agora é a sofisticação do intermediário. As respostas são rápidas, bem formuladas e aparentemente seguras. O texto vem pronto, o argumento organizado, a solução plausível. O risco está justamente aí: quando o resultado parece suficiente, o processo deixa de importar.

Nesse cenário, a inteligência artificial passa a operar não como ferramenta, mas como substituto simbólico do pensamento. Perguntar torna-se repetir. Decidir passa a significar escolher entre sugestões. O raciocínio, reduzido a validação. Não se trata de falha técnica, mas de uma mudança de postura diante do conhecimento.

O efeito não é imediato, mas cumulativo. Multiplicam-se textos corretos, decisões eficientes e discursos coerentes, enquanto se reduz o espaço para a dúvida, para o erro produtivo e para o conflito de ideias. A linguagem continua funcionando, mas perde densidade. Produz-se mais conteúdo do que nunca, com menos elaboração intelectual do que se supõe.

No campo profissional, essa lógica já reorganiza critérios de valor. A habilidade de operar sistemas de IA tornou-se requisito básico. Em muitos contextos, ela é confundida com competência analítica. A produtividade acelera, mas o julgamento se fragiliza. A confiança excessiva em sistemas que não respondem pelo que produzem desloca a responsabilidade do sujeito para o processo.

Esse deslocamento afeta diretamente a noção de autoria. Quando o pensamento é terceirizado, a decisão deixa de ser plenamente assumida. O erro se dilui, a escolha se esconde atrás da recomendação algorítmica, a crítica se enfraquece. A tecnologia não decide, mas oferece caminhos prontos demais para quem não deseja decidir.
Não se trata de rejeitar a inteligência artificial nem de minimizar seus ganhos reais. Ferramentas ampliam capacidades, organizam informações e reduzem tarefas repetitivas. O problema surge quando passam a ocupar o lugar do pensamento crítico. Quando são usadas para evitar o tempo da reflexão, a complexidade do juízo e a responsabilidade da autoria.

Há uma dimensão ética nessa escolha. Pensar é assumir risco. É aceitar a possibilidade do erro, da discordância e da incompletude. Delegar o pensamento em troca de segurança e rapidez pode parecer eficiente, mas empobrece o debate público e fragiliza decisões coletivas.

A inteligência artificial não empobrece o pensamento por si só. Ela apenas revela um movimento anterior, a disposição crescente de abrir mão da elaboração intelectual em nome da eficiência. O algoritmo não silencia ninguém. O silêncio nasce quando o sujeito abdica de pensar.

Talvez o desafio em 2026 não seja aprender a usar melhor a IA, mas reafirmar o valor do pensamento humano diante dela. Usá-la como instrumento, não como substituto. Como apoio ao raciocínio, não como autorização para abdicar dele.

Porque, no fim, a tecnologia pode organizar dados, estruturar textos e sugerir caminhos. Mas só o pensamento é capaz de produzir sentido, sustentar escolhas e responder pelas consequências do que se diz e do que se faz.

por Danielle Leduc Bastos Redú – Publicitária (UCPel), especialista em Marketing, Estratégia e Inovação e em Copywriting e Escrita Criativa (UNINTER), mestranda em Letras (UFMS) e coordenadora do curso de Publicidade e Propaganda (AEMS).