
Nos últimos anos, o Brasil tem vivido um cenário de desajuste institucional preocupante. Em 2026, é fundamental que o país retome a normalidade democrática, pois a confusão entre os Poderes ameaça não apenas a governabilidade, mas a soberania institucional.
Do ponto de vista econômico, a contradição é evidente. O governo arrecadou quase R$ 3 trilhões em 2025 e, ainda assim, fechou o ano no vermelho. A conta não fecha para o cidadão comum, que trabalha, paga impostos e cobra retorno em serviços públicos. O problema não parece ser apenas arrecadação: é a forma como o Estado gasta, decide e muda de rumo em meio à instabilidade política.
No Orçamento, a disputa também se ampliou. O Legislativo passou a controlar, por meio de emendas parlamentares, uma fatia que se aproxima de um terço do que o Executivo tem para investimentos. Isso altera a lógica do planejamento e reforça a percepção de que a máquina pública se tornou refém de pressões e negociações, em vez de prioridades de longo prazo.
Mas a principal fonte de desordem institucional não está apenas na briga política. Está no protagonismo crescente do Judiciário, que deixou de ser árbitro para se tornar, muitas vezes, jogador. O que se observa é um ciclo de judicialização permanente: o Executivo tenta neutralizar o Legislativo por decisões judiciais, e então o Judiciário assume o papel de decidir temas que deveriam ser resolvidos no voto, na lei e no debate parlamentar, para quem realmente foi eleito para isso. O resultado é insegurança jurídica e instabilidade.
Montesquieu defendia que a liberdade política depende da separação de Poderes e do equilíbrio entre eles. Quando decisões judiciais ultrapassam o papel constitucional de julgar e passam a interferir em áreas que exigem estabilidade técnica e previsibilidade, abre-se espaço para abusos e “aberrações jurídicas”, com impacto direto na confiança pública.
Os exemplos se acumulam. O mais recente envolve a interferência em questões ligadas ao Banco Central, no contexto da liquidação de uma instituição financeira. Em um setor no qual credibilidade é pilar, pressões sobre órgãos técnicos, ainda mais em casos cercados por influência política em Brasília, podem gerar danos irreparáveis ao sistema financeiro.
Em ano eleitoral, esse ponto precisa pesar. A normalidade institucional não é detalhe: é o que sustenta a democracia e permite que o país funcione. Cabe ao eleitor observar quem alimenta a instabilidade, quem transforma exceções em regra e quem contribui para enfraquecer os limites entre os Poderes. Em 2026, mais do que slogans, será necessário escolher responsabilidade.
“A principal fonte de desordem institucional não está apenas na briga política. Está no protagonismo crescente do Judiciário, que deixou de ser árbitro para se tornar, muitas vezes, jogador”.