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Sapateiro de Três Lagoas transforma cotidiano em livro

Sapateiro há mais de 40 anos em Três Lagoas, Celso Jacinto dos Santos transforma histórias do cotidiano da profissão em literatura e prepara o lançamento do livro Contos de um Sapateiro

A paixão pela leitura levou à criação de uma biblioteca comunitária. Foto: Reprodução/TVC HD.
A paixão pela leitura levou à criação de uma biblioteca comunitária. Foto: Reprodução/TVC HD.

Em meio ao som ritmado do martelo, ao cheiro de couro e à rotina silenciosa dos consertos, nasce um livro. Um livro feito de pequenos gestos, encontros inesperados e histórias que só quem observa o mundo com atenção consegue guardar. É assim que Celso Jacinto dos Santos, 57 anos, sapateiro há mais de quatro décadas em Três Lagoas, prepara o lançamento de Contos de um Sapateiro, obra que transforma o dia a dia da profissão em literatura cheia de sensibilidade.

Celso começou cedo. Dos 14 para os 15 anos, na extinta Sapataria Azul, do senhor Félix Rosário dos Santos, deu os primeiros passos em uma profissão que se tornaria muito mais do que um meio de sustento. Hoje, são 42 para 43 anos dedicados ao ofício, que mudou com o tempo, mas não perdeu o valor. Se antes o trabalho era impulsionado por uma cidade agropecuária, cheia de botas e botinas do campo, hoje a sapataria sobrevive principalmente dos consertos e da manutenção. Mochilas escolares, bolsas de viagem, chuteiras e calçados que ganham uma segunda chance passam diariamente pelas mãos do sapateiro.

Para Celso, o conserto vai além do material. Ele compara o trabalho à ideia de reciclar, de dar novo sentido ao que parecia gasto. Assim como nas igrejas se busca reciclar almas, na sapataria se reciclam calçados. Uma metáfora simples, mas profunda, que revela como ele enxerga a própria profissão. Mesmo com a redução drástica no número de sapateiros na cidade, hoje entre quatro e cinco, contra cerca de vinte nas décadas de 1970 e 1980, Celso defende o ofício com convicção. Para ele, qualquer profissão, quando exercida com seriedade, dedicação e boa administração, é digna e capaz de garantir uma vida honesta.

Além do trabalho manual, Celso também compartilha conhecimento. Ensina ajudantes, respeitando o tempo da escola, incentivando os mais jovens a desenvolverem habilidades, conquistarem o próprio dinheiro e aprenderem valores que não se ensinam apenas nos livros. Curiosamente, são justamente os livros que ocupam um lugar especial dentro da sapataria.

A paixão pela leitura levou à criação de uma biblioteca comunitária que nasceu de forma simples, quase tímida, com a ideia de doar marca-páginas quando não era possível doar livros. O projeto cresceu, ganhou apoio, prêmios do governo estadual e hoje conta com mais de oito pontos de empréstimo espalhados pela cidade.

No caminho, Celso descobriu que a biblioteca também era uma profissão. Fez curso técnico em biblioteconomia, formação no magistério e seguiu ampliando o alcance da iniciativa.

É desse universo, onde sapatos, pessoas e histórias se cruzam todos os dias, que nasce Contos de um Sapateiro. O livro reúne relatos simples e marcantes, como o do menino de oito anos que pediu dinheiro emprestado para consertar o pneu da bicicleta e voltou no dia seguinte para pagar, deixando uma lição de responsabilidade que Celso jamais esqueceu. Ou da senhora que, após uma oração, viu seu calçado ser encontrado em meio à correria do fim de ano, transformando aflição em alívio.

O lançamento está previsto para este ano, com expectativa para o meio do ano ou, no máximo, o final. Mais do que um livro, a obra é um convite à observação do cotidiano, à valorização das pequenas histórias e à certeza de que, mesmo nos lugares mais simples, há narrativas riquíssimas esperando para serem contadas.

Entre a leitura, a escrita, a música e o trabalho artesanal, Celso mantém viva uma lição que carrega desde a infância, quando ouviu de uma professora que uma casa sem livros é uma casa vazia. Hoje, sua sapataria prova exatamente o contrário. Ali, entre solas e palavras, há histórias que enchem qualquer espaço de sentido.